Pessoas e Planeta
Influências Humanas no Planeta*

Os humanos são uma espécie prolífica e oportunista, entre os habitantes mais bem-sucedidos da Terra. Com o aumento da população humana, as pessoas se espalharam pelo globo por todos os habitats imagináveis. Ao longo da história humana, as pessoas têm demonstrado habilidade fantástica para se adaptarem e sobreviverem em alguns lugares muito difíceis, incluindo, mais recentemente, o espaço sideral e os oceanos - pelo menos por curtos períodos de tempo.

Com a evolução da atividade humana, as pessoas desenvolveram novas maneiras de viver e usar seu ambiente, e de utilizar tudo o que a Terra tem a oferecer. Sua habilidade de explorar os recursos aparentemente inesgotáveis da Terra tem sido a chave vital para o sucesso da espécie humana.

Contudo, muitos dos grandes avanços da atividade humana - do cultivo de plantações e o desenvolvimento de cidades às tecnologias modernas - tenderam a insular as pessoas do próprio ambiente que as moldaram e do qual elas dependem. Como um grupo, as pessoas freqüentemente esquecem de que para cada ação feita existe uma reação, um impacto.

Os impactos das atividades humanas na Terra normalmente têm componentes negativos e positivos. Por exemplo, quando as pessoas convertem florestas ou bosques em plantações, eles melhoram os meios pelos quais alimentam sua população crescente. Ao mesmo tempo, eles invariavelmente reduzem a diversidade biológica das áreas convertidas. Com o tempo, as pessoas raramente têm sido completamente conscientes da mudança tremenda que elas causaram a Terra ou que seus sucessos normalmente foram atingidos às custas de outras espécies e do meio ambiente.

A Conferência Internacional sobre o Programa de Ação de População e Desenvolvimento notou que estabilizar a população mundial é crucial para atingir o desenvolvimento sustentável. A estabilização da população também é necessária para administrar os impactos humanos no ambiente e nos recursos da Terra. Em 1999, a população humana da Terra atingiu 6 bilhões, tendo crescido a um ritmo de 13% por ano da década de 1990, com uma média anual de 78 milhões de indivíduos a mais por ano. Em 1999, países com mais de 100 milhões de habitantes ou mais incluíam China, Índia, Estados Unidos, Indonésia, Brasil, Paquistão, Federação Russa, Bangladesh, Japão e Nigéria. De acordo com as projeções e estimativas das Nações Unidas sobre a variante média de população, a população mundial irá atingir 7.200 milhões no ano 2015. 98% do aumento da população ocorrerá nas regiões menos desenvolvidas do mundo. A África irá experimentar, de longe, o nível de crescimento mais rápido (Divisão Populacional 2000).

De maneira geral, o impacto que os humanos têm no meio ambiente global é proporcional ao número de pessoas na Terra e a média de influência de cada indivíduo. Para reduzir esse impacto, é essencial atacar ambos os fatores.

População Mundial

Uma definição simples da população mundial é o número de pessoas vivas na Terra em qualquer momento determinado na história. A população mundial atingiu 6.400 milhões em 2004 e continua a crescer num ritmo de 80 milhões por ano (Tabela 2.1). Desde os anos 1950, a China é o país mais populoso do mundo (Tabela 2.2). A população da China é atualmente maior do que a de regiões inteiras do mundo (Perfil da População Global, 2002). Até 2050, a estimativa é que a população atinja de 7.900 a 10.900 milhões de pessoas, quando é provável que a estabilização comece a ocorrer. Se a população mundial na metade do século irá atingir ou não as previsões - ao invés de excedê-las - dependerá de muitas das escolhas e compromissos que as pessoas farão nos próximos anos (UNFPA 2001).

Tabela 2.1 - População mundial em determinados pontos da história

Fonte: ESA 2003

Ano

População

1970

3.692.492.000

1975

4.068.109.000

1980

4.434.682.000

1985

4.830.979.000

1990

5.263.593.000

1995

5.674.380.000

2000

6.070.581.000

2005

6.453.628.000

2010

6.830.283.000

O tamanho de qualquer população muda como resultado da flutuação de três fatores fundamentais: taxa de natalidade, taxa de mortalidade, e emigração e imigração. Quando algum ou todos os fatores diferem de zero, o tamanho da população muda (Perfil da População Global 2002). A força primordial da mudança populacional, seja num país considerado individualmente ou em todo o mundo, é a mudança nas taxas de mortalidade e natalidade.

A população mundial está crescendo mais devagar do que era esperado (Figura 2.1) como resultado de ajuda humanitária, programas de planejamento familiar, e programas econômicos e educacionais direcionados para as mulheres. As pessoas também estão mais saudáveis e vivendo mais do que no passado; a expectativa média de vida aumentou ao passo que as taxas de natalidade e mortalidade estão seguindo uma tendência de queda (Tabelas 2.3, 2.4, 2.5 e 2.6).

É provável que a maior parte do crescimento aconteça em países que têm grande número de jovens e onde grandes famílias ainda são a norma. Além disso, a mortalidade decrescente e a longevidade ampliada resultaram, e vão continuar a resultar, no crescimento das populações mais velhas. Ao redor do mundo, a expectativa média de vida nos anos 1950 era de 46 anos, em 2050, a projeção é de que será de 76 anos (Hunter 2001).

Tabela 2.2 - Os dez países mais populosos: 1950, 2002, 2050

Fonte: U.S. Census Bureau, International Programs Center, International Data Base are unpublished tables.

1950

2002

2050

1.China

1. China

1. Índia

2. Índia

2. Índia

2. China

3. Estados Unidos

3. Estados Unidos

3. Estados Unidos

4. Rússia

4. Indonésia

4. Indonésia

5. Japão

5. Brasil

5. Nigéria

6. Indonésia

6. Paquistão

6. Bangladesh

7. Alemanha

7. Rússia

7. Paquistão

8. Brasil

8. Bangladesh

8. Brasil

9. Reino Unido

9. Nigéria

9. Congo

10. Itália

10.Japão

10. México

Tabela 2.3 -Média de idade em algumas épocas    

Fonte: ESA, 2003.                  

Ano

Idade média

1970

21,7

1975

22

1980

22,7

1985

23,4

1990

24,3

1995

25,3

2000

26,4

2005

27,4

2010

28,4

Tabela 2.4 - Expectativa de vida média ao nascimento - Variante média

Fonte: ESA, 2003.

Período

Os dois sexos combinados

Homem

Mulher

1970-1975

58

56,5

59,5

1975-1980

59,8

58,1

61,5

1980-1985

61,3

59,4

63,2

1985-1990

62,9

60,9

64,8

1990-1995

63,8

61,7

65,9

1995-2000

64,6

62,5

66,9

2000-2005

65,4

63,3

67,6

2005-2010

66,3

64,2

68,4

Tabela 2.5 - Taxa de natalidade por 1000 - Variante média

Fonte: ESA 2003.

Período

Taxa de natalidade

1970-1975

30,9

1975-1980

28,1

1980-1985

27,4

1985-1990

26,8

1990-1995

24,5

1995-2000

22,7

2000-2005

21,3

2005-2010

20,4

 

Tabela 2.6 - Taxa de mortalidade por 1000 - Variante média

Fonte: ESA 2003.

Período

Taxa de mortalidade

1970-1975

11,6

1975-1980

10,9

1980-1985

10,3

1985-1990

9,7

1990-1995

9,5

1995-2000

9,2

2000-2005

9,1

2005-2010

9

Enquanto um aumento na expectativa de vida é um desenvolvimento positivo, este apresenta uma série de novos desafios. Na Europa, por exemplo, onde as mulheres dão a luz a uma média de 1,4 crianças, os governos se preocupam com uma possível falta de trabalhadores no futuro para sustentar o crescente número de aposentados. Uma população que envelhece onera o sistema de previdência e de planos de pensão de um país, e pressiona os orçamentos para a saúde, uma vez que os idosos requerem maiores cuidados. Alguns governos também se preocupam que uma queda na população economicamente ativa possa significar perda de poder econômico e político (Ashford 2004).

Uma das principais razões para o crescimento tão acelerado da população mundial nos últimos 200 anos é fato de que as taxas de mortalidade vêm caindo mais rápido que as taxas de natalidade. Melhoras no saneamento, cuidados médicos, remédios, abrigo e nutrição, todos levaram a aumentos dramáticos na expectativa de vida. Taxas de natalidade, por outro lado, recentemente caíram mais rapidamente que as taxas de mortalidade (PNUMA 1999).

Existe um grande paradoxo nas tendências da população global: há mais de duas décadas, muitos países em desenvolvimento passaram por uma grande queda de fertilidade, ao passo que as taxas de fertilidade dos países desenvolvidos continuaram muito baixas (Figura 2.2). Contudo, é quase certo nos próximos anos um aumento na população mundial.

O Modelo de Transição Demográfica mostra como a população de um país pode mudar com o desenvolvimento do Estado. No entanto, esse modelo não considera a migração. Em todo o mundo, o êxodo rural acelera, fazendo com que a migração tanto nacional quanto internacional seja talvez uma das questões políticas mais importantes do século. A migração geográfica de força de trabalho, saindo de zonas rurais e de seus empregos em fazendas, é um dos efeitos mais penetrantes das transformações da agricultura e do crescimento econômico. Contudo, num mundo de mercados completos e com bom funcionamento, há quase ou nenhum espaço para políticas que reduzam a migração; o movimento da força de trabalho para fora da agricultura é tanto um efeito das transformações agrícolas, quanto um pré-requisito para crescimento econômico eficiente e balanceado (Taylor e Martin 2002).

Figura 2.2: Tendência das taxas de natalidade em grandes regiões do mundo, 1970 e 2004

Fonte: Divisão Populacional da ONU, Panorama da População Mundial: a Revisão de 2002 (informações de 1970), e C.Haub, Folha de População Mundial 2004 (informações de 2004).

África Ásia América Latina América Europa e Caribe do Norte

Claramente, os números humanos não poderão continuar a crescer indefinidamente. Quanto mais pessoas e mais elas vivem, maior a competição pelos recursos limitados da Terra. A não ser que todas as nações adotem métodos mais sustentáveis de produção e consumo, a capacidade do planeta será excedida (PNUMA, 1999).

Recursos naturais são severamente limitados, e existem evidências emergentes que as forças naturais já estão começando a controlar a população humana através de doenças e desnutrição (Pimentel et al. 1999).

Os desafios naturais que as pessoas já enfrentam e provavelmente vão continuar a enfrentar no futuro seriam menos difíceis se a população mundial crescesse muito devagar ou se não crescesse. O número de pessoas na Terra e a taxa pela qual esse número aumenta (Tabela 2.7) impacta dramaticamente a disponibilidade de água, solo, terras aráveis, minerais, combustíveis, e muitos outros recursos naturais em todo o mundo. O acesso e o uso de planejamento familiar pode ajudar a diminuir as taxas de fertilidade e atrasar a primeira gravidez, ajudando a diminuir o crescimento populacional. Amplas políticas populacionais são um elemento essencial numa estratégia de desenvolvimento que combine acesso a serviços médicos, educação e oportunidades econômicas, melhores fontes de energia e tecnologias no uso de recursos naturais, e modos de consumo mais razoáveis. Tal estratégia tem o poder de trazer humanidade para a para uma balança permanente entre o meio ambiente e os recursos naturais dos quais as pessoas vão sempre depender (Folha de Fatos Populacionais 2000).

Tabela 2.7 - Eventos Vitais do Mundo por Unidade de Tempo: 2004 (os números podem não somar devido a arredondamento).

Fonte: http://www.census.gov/cgi/ipc/pcwe

Unidade de tempo

Nascimentos

Morte natural

Aumento de população

Ano

29.358.036

56.150.533

73.207.503

Mês

10.779.836

4.679.211

6.100.625

Dia

353.437

153.417

200.021

Hora

14.727

6.392

8.334

Minuto

245

107

139

Segundo

4,1

1,8

2,3

Somado ao aumento populacional global, a distribuição geográfica das populações passou por grandes mudanças durante o século XX. Por exemplo, entre 1900 e 1990, a população ao norte da América do Sul aumentou em 214 milhões, ou 681%, comparada ao aumento médio global de 3.700 milhões ou 236% (Ramankutty e Olejniczak 2002).

* Tradução livre de capítulo de "One Planet Many People - Atlas of Our Changing Environment", publicação do PNUMA de 2005, feita por Anna Carolina Pereira Mendes da Silva, estagiária do Instituto Brasil PNUMA