Os Desertos

 

Os desertos*

O PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) decidiu que 2006 seria o ano dos desertos. Nós ouvimos falar muito dos problemas ligados a questão da água, o esgotamento das fontes fósseis, mas poucos falam dos desertos.

  1. O que é um deserto?

Existem muitos critérios para definir uma região biogeográfica desértica, mas o parâmetro mais importante é a aridez, pois a falta de água que limitará os processos biológicos naturais.

A maneira mais comum de avaliar a aridez é a utilização do “Índice de Aridez”, ou seja, a relação entre a Precipitação (P) e a Evapotranspiração (EVT) (Índice de Aridez = ).

A tabela a seguir apresenta uma classificação das áreas áridas e hiperaridas do planeta segundo o “Índice de Aridez”, podendo ser um critério para a definição dos desertos.

 

Classificação

Índice de Aridez

Área
(10 6 km²)

Área
(%mundo)

Hyperarido

< 0,05

10

7,5

Arido

0,05 - 0,20

16,2

12,1

Os desertos, representam um quinto (19,6%) da terra e se estendem sobre cerca de 33,7 milhões de km².

Os desertos podem também ser definidos a partir de um critério bio-ecológico, analisando a presença de algumas plantas características (“xerophilous life-forms”), ou seja, a cobertura vegetal do planeta. Qualquer que seja o critério considerado, as cartas dos desertos no planeta são muito parecidas.

 

 

De maneira resumida, um deserto será uma região que tem solos desnudos, com pouca cobertura vegetal, com um “Índice de Aridez” menor que 20%, e onde os animais e o vegetais mostram capacidades de adaptação evidentes.

Existem 3 grandes tipos de desertos: os desertos continentais, os desertos costeiros e os desertos tropicais. Essa divisão depende, em parte, da latitude (exposição solar), das condições meteorológicas e climáticas (circulações de massas de ar e dos oceanos) e da topografia (efeito de “rain shadow”).

Mudanças climáticas e Precipitações

Os desertos são caracterizados por condições climáticas extremas; além de uma exposição solar intensa, com temperaturas diurnas de até 80°C , seguida por noites frias (temperatura até - 20°C ), eles são submetidos a uma alternância de períodos breves de precipitações abundantes com períodos longos de secas intensas. Esse fenômeno é chamado de “Pulsos de chuva” (“Rainfall pulses”).

Apesar de serem raros e imprevisíveis, os “pulsos de chuva” são a “força” que estrutura os ecossistemas desérticos; é justamente essa heterogeneidade que favorece a grande biodiversidade destes ecossistemas desérticos. Como veremos mais a frente, os animais e os vegetais desenvolveram uma capacidade de adaptação para sobreviver nessas condições extremas.

Esses “pulsos de chuva” dependem das condições atmosféricas globais e dos fenômenos oceânicos. Dois importantes sistemas podem trazer chuvas aos desertos:

 

  • Tranporte horizontal (pelo vento) do ar úmido do mar para os continentes, durante o inverno, o que causa condensação sobre os continentes e precipitações. Essas precipitações são chamadas de “precipitações de inverno”.
  • Ascenção vertical (sobre os continentes) do ar quente, num processo chamado de convecção. As precipitações resultantes são chamadas “precipitações de verão”, ou monções.

As monções são localizadas nas regiões tropicais, enquanto as precipitações de inverno serão localizadas em latitudes mais altas.

Adaptações biológicas à aridez

A escassez de água e a aridez implicam uma seleção natural mais intensa nos desertos que em todos os outros lugares do mundo. Assim, o deserto é o primeiro ecossistema a ser estudado para entender o fenômeno de evolução.

  • Adaptações das plantas à aridez

As plantas desenvolvem diferentes estratégias para sobreviver sob as condições extremas dos desertos.

Podemos classificar as plantas em duas grandes categorias, segundo a estratégia de adaptação: (a) sobreviver às piores condições graças a um uso eficiente da água, ou (b) sobreviver de maneira efêmera aproveitando as melhores condições, usando a água para uma reprodução abundante.

Estratégia

Forma de adaptação

Características

Exemplo

Sobreviver as secas

Adaptação Morfologia e Metabolismo

1. Extração e uso extremamente eficiente da água
2. Proteção contra evaporação
3. Acumulo de água em tecidos

Cactus, Acacias,
"True Xerophytes"

Sobreviver sob formas diferentes

Ciclo de vida efêmero

1. Uso rápido dos recursos abundantes e efêmeros
2. Reprodução abundante

 


Essas plantas efêmeras têm um papel muito importante no ciclo ecológico sendo elas o alimento de base para muitas espécies animais.

  • Adaptações dos animais à aridez

O problema fisiológico mais básico para os animais dos desertos é manter o balanço hídrico do corpo, maximizando a entrada de água e minimizando a saída (através da urina, da respiração ou da transpiração).

Os camelos são um exemplo perfeito de uma adaptação a esse problema: eles podem beber uma quantidade de água enorme durante um tempo mínimo, causando uma diluição do sangue suficiente para causar morte para outros animais. Além disso, eles podem suportar uma elevação da temperatura do corpo até 44°C , o que minimiza a transpiração.

Um outro exemplo da minimização das perdas de água é a produção de urina muito concentrada, ou seja que contém muito pouco água.

Além das adaptações fisiológicas, anatômicas e morfológicas, os animais podem desenvolver um comportamento particular. Durante os períodos críticos de secas, enquanto certos animais (como muitas aves) vão migrar para outras regiões, os pequenos animais vão se esconder embaixo da terra durante o dia e buscar alimentos durante a noite.

No caso das serpentes, obrigadas a ficar no chão, onde a temperatura pode alcançar 80° C durante o dia, elas desenvolvem uma maneira particular de mover-se no chão, minimizando a superfície de contato com ele.

Os animais que não podem evitar o sol durante o dia adotam uma posição ótima para minimizar o impacto dos raios solares (ex: o esquilo).

Existem finalmente interações entre a fauna e a flora: as plantas podem fornecer abrigo para pequenos animais, enquanto os animais podem ajudar na regulação das plantas (ex: transporte do pólen pelos insetos). Essa interação entre a fauna e a flora significa que o desaparecimento de uma planta, por exemplo, pode levar ao desaparecimento de animais, e vice-versa.

O deserto e o homem

Os seres humanos habitam os desertos há tempos imemoriais, onde as atividades são definidas por seus parâmetros básicos: precipitações, essenciais para o crescimento de qualquer forma de vida, altas temperaturas e ventos fortes.

Da mesma maneira que os animais e as plantas, os homens se adaptaram para enfrentar essas condições extremas. Em vez de adaptações morfológicas ou fisiológicas, os seres humanos modificaram os seus comportamentos, e desenvolveram uma cultura e uma tecnologia especiais.

Para enfrentar as altas temperaturas (positivas e negativas), os povos dos desertos usam roupas que limitam a evaporação, geralmente de cor branca, para refletir os raios solares.

Calor, aridez e ventos fortes são também parâmetros importantes para a construção civil: paredes finas e pequenas janelas protegem do calor diurno, mas não protegem do frio noturno, e não podem resistir aos ventos intensos. Assim, barracas (ex: “yourte” na Mongólia) aparecem como uma boa solução para abrigar-se nos desertos.

  • Povos tradicionais dos desertos

(a) A caça e a colheita foram certamente os primeiros meios nos desertos (assim como no mundo inteiro) usados pelos seres humanos para sobreviver. Geralmente, uma árvore frutífera que dá frutos estocáveis constituía a base do regime alimentar, porque era possível o armazenamento e o deslocamento desses recursos. Antes da lenta evolução da agricultura e da pastoragem, a caça e a colheita foram o único modo de vida nos desertos.

(b) A criação de animais permite o aproveitamento de vários recursos, tais como o leite, a carne e a pele por exemplo. Podemos citar o camelo, que é o único animal domesticado nos desertos hiperaridos, porque ele pode suportar alta temperatura do corpo, e perdas de água que podem representar até 25% do seu peso total, recuperando essas perdas em apenas três minutos.

Cordeiros, cabras e bois, apesar de apresentarem menor adaptação, são também muitos importantes para os criadores.

Os criadores, assim como os caçadores, se deslocam muito a fim de procurar as regiões mais férteis do deserto.

(c) A agricultura se desenvolveu de maneira diferente segundo o tipo de deserto, sendo ela mais importante nos locais de maior precipitação. Os grandes rios perenes, tais como o Nilo, o Tigre e o Eufrates, abastecem os povos dos desertos, notadamente a irrigação, durante séculos.

Frente a essas condições extremas, os homens dos desertos mostraram engenhosidade para cultivar a terra: na área de irrigação, eles usaram sistemas de terraços sucessivos, ou micro drenagem, a fim de maximizar o aproveitamento da água. Por outro lado, foram escolhidas plantas que precisam de pouca água, tais como os cereais “Millet” e “Sorgo”.

Caça e Colheita, Criação de animais, e Agricultura foram os três grandes recursos usados pelos povos tradicionais dos desertos. O modo de vida atual nos desertos evoluiu muito nesse ultimo século, assim como a gestão dos recursos.

  • Povos “modernos” dos desertos

A gestão dos recursos para um desenvolvimento moderno nos desertos concentra-se em dois recursos principais: a água, que é limitada, e a energia, que é muito abundante.

Apesar de alguns grupos continuarem a viver de maneira tradicional, a maioria dos povos convertem-se para as novas atividades que se desenvolvem nos desertos: o turismo e a mineração.

(a) O turismo: os homens que continuam viver tradicionalmente estão se tornando “atrações” para as turistas que se interessam por essas culturas e esses modos de vida diferentes. No entanto, a maioria das pessoas vivendo de maneira tradicional converteram-se a fim de participar às novas atividades, tornando-se guias, ou trabalhando nos complexos turísticos.

(b) A mineração: Petróleo e urânio são também fontes de interesse para grandes empresas, o que favorece o desenvolvimento de regiões urbanas, que podem depender até 100% dos recursos importados, tais como alimentação e água.

Veremos mais a frente que os desertos têm também um impacto, uma influência importante nas pesquisas mundiais, notadamente na área da biologia.

Interações entre desertos e regiões não desérticas

Os desertos e o resto do planeta estão ligados por vários processos que vamos detalhar nesse parágrafo.

  • Processos físicos

(a) As relações entre os oceanos e a atmosfera determinam as precipitações nos desertos (pelos processos de transporte vertical ou horizontal do ar): os fenômenos cíclicos “El Niño” e “ La Niña ” são um bom exemplo dessa idéia, uma vez que afetam diretamente e de maneira significativa as precipitações dos desertos costeiros da América (ex: Atacama) e da Austrália.

(b) As mudanças climáticas globais afetam também os desertos: uma variação das precipitações, assim como um aumento das temperaturas foram registrados durante o período 1976-2000 (+0,45° em média). Uma redução das precipitações implica, de maneira resumida, uma redução da umidade do solo, e portanto da vegetação e da biodiversidade. Embora as mudanças globais impliquem em um aumento das temperaturas nos desertos, esses mesmos desertos estão paradoxalmente esfriando a atmosfera global, refletindo a radiação solar pelo espaço.

(c) Por outro lado, a “poeira dos desertos” está afetando o mundo inteiro: as pequenas partículas minerais são levadas pelo vento e transportadas a milhares de quilômetros de distância. Elas afetam a visibilidade, a saúde e até os processos de formação de chuva, assim como a produtividade de plânctons nos oceanos.

Por fim, os rios que escoam nos desertos, os “cross-desert rivers”, têm sempre as suas fontes numa zona não desértica, o que significa que uma modificação do clima na região da fonte irá afetar a vazão do rio no deserto.

  • Ligações entre homens dos desertos e os outros

Alem dos fluxos físicos, tais como a circulação do ar ou da poeira, existem fluxos de bens, de serviços e de homens através dos desertos.

(a) Uma quantidade importante de recursos renováveis e não renováveis são exportados dos desertos. Assim, eles contribuem para 50% da produção mundial de petróleo, 52% da extração de cobre, 38% da extração de bauxita e 33% da extração de diamante no mundo. Além desses recursos não renováveis, o clima nos desertos é favorável à cultura de certas plantas e à aqüicultura; eles também têm um importante potencial para a prospecção biológica (“Bioprospecting”), a flora desértica apresentando características biológicas interessantes para a medicina.

(b) O desenvolvimento do turismo e a industrialização favoreceu a urbanização dos desertos, ou seja, o crescimento das cidades na direção dos espaços abertos dos desertos (onde os terrenos são mais baratos).

  • Desertos como “corredores”

Os desertos são cortados por “corredores”, ou seja vias preferenciais usadas pelas caravanas de camelos e pelas aves.

 

(a) Muitos desertos são cortados por vias preferenciais, rotas de comércio, há milênios: geralmente, essas vias representam um conjunto de segmentos ligando oásis, e minimizando a distância entre dois pontos extremos de um deserto.

Além de permitir o trânsito de mercadorias, esses corredores constituem uma cadeia de comunicação, de informação e de troca cultural entre duas regiões não desérticas.

Apesar de um enfraquecimento desse trânsito a partir do século XVI (por causa da preferência para as rotas marítimas), essas vias estão conhecendo hoje uma modernização, devido principalmente ao desenvolvimento da indústria do turismo. Por outro lado, 60% do ópio afegão ainda transita pelos desertos.

 

(b) Milhares de aves são migratórias; indo do Norte para o Sul, elas geralmente têm que cruzar (duas vezes por ano) os desertos situados nas regiões subtropicais: esses itinerários preferenciais são chamados de “corredores de migração”.

Os gafanhotos também percorrem os desertos: durante a estação de chuva, eles se reproduzem de maneira intensa, um enxame pode contar com 50.000 milhões de gafanhotos. Deslocando-se graças ao vento, eles podem atingir regiões não desérticas e danificar até 100.000 toneladas de vegetação por dia.

 

  • O impacto dos desertos nas pesquisas mundiais

(a) De um certo ponto de vista, um deserto aparece como uma região adversa à todas formas de vida: é assim mesmo que os pesquisadores do espaço consideram o deserto, como um simulador para testar os equipamentos mandados depois ao espaço (ex: a NASA testou um robô no deserto do Atacama antes de manda-lo para Marte). O deserto aparece também como um reservatório de meteoritos, e uma base de observação para os astrônomos (ex: o VLT, “Very Large Telescope” no deserto do Atacama).

(b) Sendo eles o berço das três grandes religiões mundiais, os desertos enterram inúmeros tesouros culturais, arqueológicos e paleontológicos. Os desertos podem então ser visto como um laboratório natural a ser preservado.

(c) Devido às condições climáticas extremas, o deserto é um lugar privilegiado de uma evolução natural intensa (parte 3): a reposta fisiológica das plantas e a adaptação de comportamento dos animais são de primeiro interesse para compreender a teoria da evolução. Por outro lado, o ecossistema desértico aparece como um ecossistema simplificado (só tem um parâmetro importante: a água), o que favorece o entendimento dos mecanismos da diversidade e da cadeia alimentar entre animais e vegetais.

Desafios e oportunidades - Mudanças, Desenvolvimento e Conservação

 

  • A força da Mudança

(a) De maneira geral, a População tradicional dos desertos não vai evoluir muito; os criadores e os mineradores, assim como os povos rurais não conhecerão grandes mudanças no futuro. Todavia, a migração dos “povos modernos” vai continuar a aumentar nos próximos anos.

(b) Os Investimentos, que concernem principalmente as áreas de energia, de turismo, assim como o aproveitamento de regiões imensas (ex: treinamento militar ou testes nucleares), deverão conhecer um crescimento menor, por causa do esgotamento dos recursos ou da saturação do mercado turístico. Mas o aumento da demanda em Energia, e assim o aumento dos custos de gás e de petróleo, deverão favorecer os investimentos em energia.

(c) A evolução do Clima é também um parâmetro importante da equação: um grande aumento da temperatura da Terra pode afetar diretamente a presença de água nos desertos. Assim, o IPCC indica que as precipitações podem diminuir de 30% nas próximas décadas em alguns desertos da África. Como conseqüência direta, podemos destacar a diminuição da eficiência das colheitas, que levam riscos para a saúde humana.

 

 

(d) A Reabilitação de áreas degradas, por causa do sal por exemplo, será também um grande desafio para o futuro.

Finalmente, o controle e a racionalização do uso da água parecem cruciais a fim de evitar conflitos entre países onde já há escassez de água.

 

  • Desafios e Oportunidades de Desenvolvimento

(a) Água: em vez de investir em imensos projetos como foi realizado no passado, a tendência para o futuro será o desenvolvimento de melhores políticas de gestão e de distribuição da água. Assim, por exemplo, a cultura de produtos que consumem muita água (ex: algodão) deverá diminuir, assim como a construção de reservatórios para produção de energia elétrica ou lazer. O abastecimento de água será então melhorado somente por uma combinação de tecnologias novas (ex: irrigação por “microsprinklers” que permitem uma eficiência de 95%, reuso de água) com uma gestão eficiente.

(b) Turismo: esse setor representa uma grande oportunidade para o desenvolvimento dos desertos, mas investir nele tem riscos. Mas a instabilidade política de certos paises (ex: Namíbia, Chade) ou a alta taxa de criminalidade (ex: México) pode diminuir o número de visitantes. Da mesma forma, a recessão e os altos custos energéticos podem enfraquecer os investimentos. Só um eco turismo cuidadosamente definido e controlado terá potencial para contribuir ao desenvolvimento local.

(c) Uso do espaço: a grande disponibilidade de espaços combinado ao afastamento destes de qualquer forma de vida humana permite o desenvolvimento de projetos militares e espaciais (parte 5). As condições naturais hostis dos desertos justificam a implantação desses programas de treinamento nesses lugares. Esses grandes e vazios espaços têm também um potencial energético único; assim, a implantação de instalações de energia solar e eólica pode ser uma solução para a problemática energética mundial. Cientistas afirmam que a instalação de painéis solares sobre uma área de 800x800km no deserto do Saara produziria bastante energia para todo o planeta. Da mesma forma, agricultura, horticultura e aqüicultura têm um grande potencial nos desertos, por causa da intensidade das radiações solares e do ritmo das estações, caso haja bastante água.

 

  • Conservação e Uso Sustentável

Além de todas as perspectivas econômicas, energéticas e demográficas nos desertos, é importante analisar a evolução de parâmetros tais como a conservação do solo, a biodiversidade ou simplesmente a beleza natural.

(a) A agricultura e a criação de animais podem danificar definitivamente a estrutura do solo, favorecendo a erosão, o que aumenta a quantidade de sedimentos a serem transportados aos reservatórios. A agricultura favorece também a produção de poeira, que pode ser considerado como um poluente nos desertos, por causa da formação de tempestades de poeira. Assim, o controle da agricultura será um parâmetro importante a fim de conservar os desertos.

(b) Mas a irrigação será certamente uma prioridade muito maior na perspectiva de conservação dos desertos. O sistema de irrigação permitirá evitar a salinização dos solos, assim como a saturação destes em água. Isso significa uma otimização do dimensionamento da rede de irrigação de maneira a evitar a deposição de sal no solo (o que impede a entrada de água) e a saturação do solo em água.

(c) As regiões úmidas, e particularmente os rios perenes, são os lugares biologicamente mais ricos dos desertos. Conservar esses rios significa simplesmente assegurar um fluxo permanente de água de boa qualidade, limitando particularmente o fluxo de retorno de irrigação (que volta no rio) que tem maior salinidade depois da irrigação. Além disso, a presença de reservatórios afeta o regime de escoamento de um rio, assim como a biodiversidade a montante.

(d) O controle da caça e da criação de animais, e a definição de prioridade de conservação serão também parâmetros importante para a conservação da biodiversidade nos desertos. Historicamente, a caça é uma das maiores ameaças para a sustentabilidade das espécies, e hoje, uma grande parte destas esta sob ameaça de extinção.

Abastecimento de água, planejamento energético, conservação da biodiversidade, mudanças climáticas, controle do crescimento urbano: a gestão desses problemas interessa hoje a todas as regiões do mundo. Nesse relatório “Global Deserts Outlook”, percebemos a urgência de propor soluções para resolver essas grandes questões nos desertos. A escassez de água, por exemplo, é um problema de grande interesse nos desertos sabendo-se que sua disponibilidade é fraca. O futuro dos desertos, considerando como paisagens naturais e culturais, depende então de nossa capacidade de desenvolver bens e serviços sem degradar o meio ambiente. O bem estar humano (definido pelo “Millenium Ecosystem Assessment - MA)” e a sustentabilidade ambiental serão assim os dois primeiros parâmetros a serem levados em consideração antes de qualquer ação.

Finalmente, nossa gestão dos desertos pode ser considerada como um “teste” para o futuro, sabendo-se que a maioria dos problemas dos desertos vão se generalizar para o mundo inteiro daqui até algumas décadas (ex: escassez de água e de recursos naturais).

* Tradução livre de texto do relatório “Global Deserts Outlook”, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA, por Léo Genin, estagiário do Instituto Brasil PNUMA (Comitê Brasileiro do PNUMA). - 2006

 

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