“Transição para uma economia mais verde é possível”

19 de outubro de 2008

A tensão entre economia e ambiente evapora ao reconhecermos a importância de administrar os ecossistemas. Os países industrializados ajustam suas emissões aos limites estabelecidos devido à sua responsabilidade na mudança climática.

Achim Steiner, diretor do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), visitou o Panamá em setembro, motivado pelo estabelecimento de uma sede regional do organismo neste país no ano passado.

Steiner fez uma analogia à crise financeira mundial, referindo-se à situação econômica como um exemplo de como as pessoas costumam reagir muito tarde; ele acredita que se deva intervir agora para evitar uma crise similar a nível ambiental.

>>  Os latino americanos estão conscientes da urgência em resolver o problema da mudança climática?

Se prestarmos atenção ao fato que muitas geleiras vão derreter e desaparecer nos próximos 30 anos, ou que o ecossistema amazônico não sobreviverá se o aquecimento global provocar a elevação dos termômetros em 4 ou 5 graus (sendo que já estamos comprometidos com 2 graus), percebemos que para a América Latina as alterações climáticas constituem uma ameaça muito real.

As pessoas estão conscientes mas o problema é que muitos tem a impressão de que não há alternativas, de que temos que crescer economicamente e, portanto, temos que contaminar, queimar combustíveis fosseis e sustentar uma economia com altos níveis de emissão de carbono.

>> E como se pode mudar essa tendência?

A única forma de fazermos isso é os lideres políticos começarem a mostrar ao púbico que a transição a uma economia mais verde é possível.

Há países que já estão comprometidos a ser ambientalmente neutros até 2020, como Noruega e Costa Rica

De fato, é possível obter vários benefícios com isso. Na Alemanha, o fornecimento do setor de tecnologia limpa terá mais empregados em 10 anos que toda a industria automotora. Esse é o tipo de motivação que a população necessita.

>> Como está a América Latina quanto a uma economia limpa?

O Brasil está entre os maiores beneficiários do programa Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (CDM, em sua sigla em inglês).

Para dar um exemplo, estimamos que o programa poderia crescer para 600 mil projetos,na América Latina e no Caribe até 2012; hoje em dia existem de 700 a 800, o que significa dizer que eles triplicariam em menos de três anos.

>> O Panamá está envolvido na iniciativa 'Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação' (Redd)?

O Panamá está se envolvendo muito rápido. O PNUMA, o PNUD e a FAO estão de acordo sobre o lançamento de um projeto Redd aqui. Este é um dos países-piloto na região.

Damos grande importância a esse programa no Panamá porque esperamos que seja um exemplo para a implementação em muitos outros países.

O Redd é uma tentativa sem precedentes de criar um suporte financeiro, de norte a sul, fomentando um serviço ao ecossistema. É possível dizer que paga-se por um serviço ao ecossistema e, dessa forma, o Panamá tem uma oportunidade de oferecer às comunidades e à nação uma justificativa financeira para manter os bosques.

>> O Protocolo de Kyoto não estabelece limites de emissão de carbono para países em desenvolvimento. Há algum plano para regulá-los?

O tratado do Protocolo de Kyoto  determina que as nações industrializadas reduzam suas emissões de gases que causam o efeito estufa porque eles não só são os maiores emissores como também o têm feito desde a Revolução Industrial.

Já que o dióxido de carbono (CO2) – o principal culpado pelo efeito estufa – se encontra na atmosfera por dois ou mais séculos, a mudança climática que vivemos é sua responsabilidade.

De qualquer forma, os países em desenvolvimento podem, se for sua vontade, estabelecer metas voluntárias sob o Princípio do Rio de Responsabilidades Comuns mas Diferenciadas de 1992. Países como a África do Sul e o México estão comprometidos em tentar controlar o aumento de suas emissões ao mesmo tempo em que suas economias continuam crescendo.

>> Como se pode liberar a tensão existente entre desenvolvimento econômico e cuidado ambiental?

A tensão existente entre economia e ambiente esta se diluindo a medida que mais governos e empresas reconhecem o vínculo entre a administração e o desenvolvimento sustentável dos ativos de ecossistemas naturais como bosques, solos e zonas costeiras.

Em um mundo em que os recursos naturais e o clima estão cada vez mais restritos, faz sentido economicamente tentar explorar os recursos disponíveis de maneira mais eficiente.

Já é possível vislumbrar o “enverdecimento” da economia global. A iniciativa financeira de energia sustentável do PNUMA acaba de reportar que os investimentos em energias limpas aumentaram 60%, atingindo a marca de 148 bilhões de dólares em 2007. Nosso relatório de empregos “verdes” estima que, a nível global, 20 milhões de trabalhos poderiam ser gerados em energias renováveis até 2030.

>> Como podemos distinguir os interesses econômicos dos ambientais?

Aí são necessárias salvaguardas, guias e regulações a nível global. São essenciais normas e padrões, como os existentes na produção de combustíveis fósseis. Por outro lado, alguns biocombustíveis podem contribuir para as metas gêmeas de diminuir as emissões de gases causadores de efeito estufa e diversificar o sustento rural.

>> Como se está lidando com a invasão dos ecossistemas animais pelo crescimento das cidades?

Ainda que haja muito desenvolvimento, cerca de 12% da superfície da terra está coberta por áreas protegidas. Noruega e Reino Unido estão começando a financiar os países tropicais para que reduzam a taxa de desmatamento, o que pode vir a fazer parte do novo acordo climático de Copenhague, Dinamarca, que será negociado ao final de 2009 na crucial Convenção Climática das Nações Unidas.

**Achim Steiner é o Diretor Executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Foi assessor de politicas na União Mundial pela Natureza e do programa para a gestão sustentável do rio Mekong, na China. Encabeçou o desenvolvimento de novas sociedades no Banco Mundial e nas Nações Unidas, bem como a união do setor publico, a sociedade civil e a empresa privada na Africa do Sul.

Fuente: http://ediciones.prensa.com/

Tradução livre de Livia de Salles Paiva, estagiária do Instituto Brasil PNUMA, de artigo do site do escritório regional do PNUMA.

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