Novo relatório de referência diz que a economia verde emergente poderia criar milhares de novos "empregos verdes"

 

 

New York, 24 de setembro de 2008 – Um novo estudo de referência sobre o impacto de uma economia verde global no mundo do trabalho diz que os esforços para lidar com a mudança climática poderiam resultar na criação de milhões de novos “empregos verdes” nas próximas décadas.
O novo relatório, intitulado Empregos Verdes: Por Trabalho Decente Em Um Mundo Sustentável, diz que as mudanças nos padrões de emprego e investimento, resultado de esforços para reduzir a mudança climática e seus efeitos, tem gerado novos empregos em muitos setores e economias, podendo ainda criar muito mais, tanto em países desenvolvidos quanto nos subdesenvolvidos.
Entretanto, o relatório também diz que o processo de mudança climática, já em curso, vai continuar a ter efeitos negativos para os trabalhadores e suas famílias, especialmente àqueles cujo sustento depende diretamente da agricultura e o turismo. Ações para resolver o problema da mudança climática assim como para lidar com seus efeitos são, portanto, urgentes e deveriam ser configuradas de maneira que gerassem empregos decentes.

Apesar do relatorio ser, no geral, otimista sobre a criação de novos trabalhos que se voltem para as mudanças climáticas, ele também chama atenção para o fato de que muitos desses novos trabalhos podem ser “sujos, perigosos e difíceis”. Entre os setores com os quais se preocupar - especialmente mas não exclusivamente nas economias em desenvolvimento - estão agricultura e reciclagem, que precisam mudar rapidamente situações recorrentes em seus quadros, como baixos salários, contratos de empregos pouco seguros e exposição dos trabalhadores a materiais que ameaçam suas saúde.

Além disso,  o relatório também diz que poucos empregos verdes estão sendo criados para os mais vulneráveis: os 1.3 bilhões de trabalhadores pobres (43% da força de trabalho mundial) no mundo que vivem com menos de 2 dólares por dia e por isso se situam, bem como seus dependentes, abaixo da linha de pobreza, ou para os estimados 500 milhões de jovens que procurarão emprego nos próximos 10 anos.

Os empregos verdes reduzem o impacto ambiental de empreendimentos e setores econômicos para níveis  sustentáveis. O relatório foca em empregos na agricultura, na indústria e nos serviços que contribuem com a preservação e a restauração da qualidade do meio ambiente. Ao mesmo tempo pede medidas para garantir que eles constituam “empregos decentes”, ou seja, que também ajudem a reduzir a pobreza enquanto protegem o meio ambiente.

O relatório diz que a mudança climática por si só, bem como a adaptação a ela e os esforços para contê-la, reduzindo as emissões, têm implicações de longo alcance para os desenvolvimentos sociais e econômicos e para os padrões de produção e consumo, influenciando portanto os padrões de emprego, lucros e redução de pobreza. Essas implicações abrigam tanto os maiores riscos quanto  as maiores oportunidades para os trabalhadores de todos os países, particularmente para os mais vulneráveis  nos países menos desenvolvidos e em pequenas ilhas.

O relatório pede “transições justas” para aqueles afetados por transformações no sentido de uma economia verde e para aqueles que terão que se adaptar às mudanças climáticas, com medidas como acesso a alternativas econômicas e oportunidades de emprego para empreendedores e trabalhadores. De acordo com o relatório,  um diálogo social significativo entre governo, trabalhadores e empregadores será essencial não só pra diminuir as tensões e dar base a políticas sociais, econômicas e ambientais mais coerentes e melhor informadas, mas para promover a participação de todos os parceiros sociais no desenvolvimento de tais políticas.

Entre outros pontos-chaves no relatório estão:

  • A projeção feita em um estudo citado no relatório é que o mercado global para produtos e serviços ambientais dobre de 1.37 trilhões de dólares por ano para 2.74 trilhões até 2020.
  • Metade desse mercado é baseado em eficiência energética, transporte sustentável, suprimento de agua, saneamento e gestão de resíduos. Na Alemanha, por exemplo, a tecnologia ambiental deve quadruplicar para 16% da produção ambiental até 2030, com a oferta de emprego nesse setor ultrapassando a das industrias automotivas nacionais.
  • Setores que vão ser particularmente importantes em termos de seu impacto ambiental, econômico e trabalhista são o suporte de energia (em particular de energia renovável), construções, transportes, indústrias de base, agricultura e silvicultura.
  • Tecnologias limpas já são o terceiro maior setor em investimento de capital de risco, ficando depois dos setores de informação e biotecnologia nos Estados Unidos, enquanto o capital de risco verde na china mais que dobrou para 19% do investimento total nos anos recentes.
  • 2.3 milhões de pessoas foram empregadas no setor de energia renovável nos últimos anos e o potencial para que  a  oferta de emprego aumente ainda mais é imenso. Os empregos em energias alternativas devem crescer para 2.1 milhões em energia eólica e 6.3 milhões em energia solar até 2030.
  • A energia renovável gera mais empregos que os combustíveis fósseis. Investimentos projetados em 630 bilhões de dólares até 2030 vão ser convertidos em pelo menos 20 milhões de novos empregos neste setor.
  • Na agricultura, 12 milhões podem ser empregados para trabalhar com biomassa em geração de energia ou em industrias relacionadas. Em um país como a Venezuela, a mistura de 10% de etanol nos combustíveis pode prover um bilhão de empregos no setor de cana-de-açúcar até 2012.
  • Uma transição mundial para construções eficientes em energia criaria milhões de empregos, bem como “tornaria verde” empregos já existentes para muitos dos estimados 111 milhões que trabalham no setor de construções.
  • Investimentos para melhorar a eficiência energética nos prédios pode gerar de 2 a 3.5 milhões de empregos verdes só na Europa e nos Estados Unidos, com um potencial muito mais alto nos países em desenvolvimento.
  • Atividades como reciclagem e gestão de resíduos empregam aproximadamente 10 milhões na China e 500.000 no Brasil hoje em dia. É esperado que esse setor cresça rapidamente em muitos países em face da escalada dos preços das commodities.
    O relatorio dá exemplos de criacoes de empregos verdes massivas ao redor do mundo como por exemplo: 600.000 pessoas na china que já estão empregadas em aquecimento solar e instalação de produtos como aquecedores solares de água; na Nigéria, a indústria de bio combustíveis deve empregar 200.000 pessoas;  a Índia pode gerar 900.000 empregos até 2025 na gasificação de biomassa; e na África do Sul, 25.000 pessoas que estavam desempregadas hoje trabalham na conservação, como parte da iniciativa “Trabalhando para a Água”.

Caminhos para empregos verdes e trabalho descente

“Uma economia sustentável não pode mais externalizar custos sociais e ambientais. O preço que a sociedade paga pelas conseqüências da poluição, por exemplo, devem refletir nos preços pagos no mercado. Empregos verdes portanto precisam ser trabalhos decentes”, o relatório diz.

O relatório recomenda alguns caminhos que vão desde direcionamentos de investimentos futuros mais sustentáveis até medidas de baixo custo que devem ser tomadas imediatamente, incluindo: calcular quantos empregos em potencial podem ser gerados para oferecer uma estrutura para políticas e investimentos; observar que tipo de investimento deve ser feito na qualificação da mão de obra e dos empreendedores para possibilitar o aumento da chegada de recursos e investimentos; e garantir o investimento individual e a contribuição de setores da economia na redução da emissão de gases de efeito estufa através da iniciativa dos próprios trabalhadores em tornar seus locais de trabalho mais “verdes”.

O relatório conclui que os mercados verdes tiveram mais sucesso e as transformações avançaram mais onde houve um forte e consistente suporte político na forma de punições e incentivos, como algumas leis e padrões de eficiência para construções e utensílios, bem como pesquisa e desenvolvimento proativos.

É colocado ainda que chegar a um profundo e decisivo acordo climático quando os países se encontrarem para o encontro sobre convenções climáticas em Copenhagen ao final de 2009 será vital para acelerar o crescimento no número de empregos verdes oferecidos no mundo.

Tradução livre de Livia de Salles Paiva, estagiária do Instituto Brasil PNUMA, de artigo do site do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (www.unep.org).

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