Saneamento – uma prioridade capixaba

Paulo Hartung é governador do Estado do Espírito Santo

Interferir no meio ambiente natural, de modo a produzir formas peculiares de existência, é marca da humanidade. Nesse sentido, ao longo de sua história, o homem vem construindo maravilhas, mas também produzindo catástrofes. Neste início de milênio, o ambiente natural pede socorro. Da mesma forma, os espaços construídos pelo engenho humano padecem de problemas crônicos. Essa situação de saturação e fadiga está presente, em maior ou menor grau, em todo o planeta.

Nesse contexto, a questão do saneamento é especialmente estratégica e delicada, pois relaciona-se diretamente com os espaços da natureza e também com os ambientes produzidos pela engenharia humana. E seus elementos são determinantes para a qualidade de vida e a sustentabilidade da própria vida no planeta. Neste artigo, como em nosso governo, entendemos saneamento numa perspectiva mais ampla, indo além do lugar comum que identifica o termo apenas como água e esgoto. Além desses, tratamos da coleta e destinação adequada de resíduos sólidos urbanos, genericamente definidos como lixo.

Depois de alguns anos reconstruindo a máquina pública capixaba, que encontramos destroçada em 2003, após um longo período de desgovernos, e também após a formulação de políticas públicas em áreas essenciais, como o saneamento, o Espírito Santo passou a empreender um inédito programa nessa área. Mobilizados pelas questões urgentes acumuladas até o presente e tendo em vista um futuro de vida sustentável e qualificada para todos os capixabas, já investimos quase R$ 300 milhões e asseguramos mais de R$ 800 milhões para investimentos em 2008, 2009 e 2010.

Águas Limpas

Mesmo com a urbanização rápida e desorganizada, nos últimos 30 anos, os governos estaduais e municipais conseguiram levar água tratada a mais de 95% da população urbana de mais de 140 milhões de brasileiros. Mas a coleta e o tratamento do esgoto gerado por toda essa água consumida ficaram em segundo plano, sem falar na desatenção às regiões de interior.

Hoje, no Brasil, em média, apenas 30% do esgoto gerado são tratados adequadamente. No Espírito Santo, 26 municípios cuidam diretamente da água e do esgoto. Os outros 52, inclusive os da Região Metropolitana, são atendidos pela Companhia Espírito- Santense de Saneamento (Cesan). Nessa área, 36% do esgoto são tratados corretamente. A prioridade é mudar radicalmente esse quadro.

Ao assumirmos, decidimos priorizar o saneamento, incluindo a finalização de diversas obras que se arrastavam havia muitos anos. Com a recuperação ética, administrativa e financeira do Estado, seguida por um bem sucedido processo de reestruturação da Cesan, foi possível, já a partir de 2003, retomar os investimentos e, inclusive, assinar um contrato de empréstimo com o Banco Mundial no valor de US$ 36 milhões, com mais US$ 26 milhões de contrapartida da nossa empresa de saneamento.

Foi então traçada a meta estratégica de atingir 60% de esgoto coletado e tratado até 2010 – eram 20% quando assumimos o novo governo –, além de deixar concluído um Plano Diretor para estabelecer os recursos técnicos e financeiros necessários para atingir os 100%, pelo menos na Região Metropolitana. Todo esse planejamento recebeu a denominação de Projeto Águas Limpas, com participação integrada das secretarias de Planejamento, Fazenda, Meio Ambiente, Transportes e Obras, além da Cesan.

O processo de ampliação do saneamento capixaba vem avançando a passos largos. Entre recursos do Estado e da Cesan, foram investidos, até o final de 2007, mais de R$ 280 milhões em sistemas de abastecimento de água e de esgotamento sanitário. De 2003 a 2007, o número de imóveis ligados às redes de esgoto passou de 128 mil para mais de 215 mil. Para os próximos anos, temos R$ 760 milhões garantidos por empréstimos conseguidos junto ao Banco Mundial, Caixa Econômica Federal e BNDES, além de recursos do orçamento estadual. Após a conclusão das obras do Águas Limpas, com certeza o Espírito Santo figurará com destaque no cenário nacional nesse serviço tão importante para saúde, meio ambiente, qualidade de vida da população e turismo que é o saneamento básico.

Espírito Santo sem Lixão Os resíduos sólidos são um desafio para o planeta. Deixaram de ser problema associado a países pobres para se incluir na agenda negativa de países do primeiro mundo. Nas grandes cidades, já estamos produzindo em média 540 kg de lixo por ano, por habitante. No Brasil, via de regra, a disposição final dos resíduos sólidos urbanos não ocorre dentro dos padrões técnicos e ambientais recomendados. Dados da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PNSB/IBGE), mostram que, em 2000, cerca de 59% dos municípios utilizavam os lixões para a disposição final dos resíduos gerados, enquanto somente 12,9% utilizavam aterros sanitários (o restante adotava ou-tras formas, corretas ou incorretas). O problema é mais grave em municípios com pequenas populações.

No Espírito Santo, a situação de destinação final dos resíduos sólidos tem evoluído. Vinte e seis municípios, responsáveis pela geração de 1.634 toneladas/dia (67% do total da massa de resíduos sólidos produzidos no estado), vêm atuando dentro dos padrões recomendados, destinando esse material a três aterros sanitários ambientalmente licenciados, todos privados. Esses municípios localizam-se, predominantemente, na Grande Vitória e destacam-se como grandes geradores de resíduos sólidos. Os demais municípios (52) vêm destinando cerca de 800 toneladas/dia de seus resíduos (33% do total estadual) de forma inadequada, em 102 lixões.

Diante dessa realidade, e em consonância com o plano estratégico Espírito Santo 2025, elaborado coletivamente por sociedade civil e governo estadual, priorizamos projetos estruturantes vinculados ao desenvolvimento do campo ambiental. Nesse segundo mandato, já estamos caminhando com o projeto Espírito Santo sem Lixão, um dos 20 prioritários de nossa administração. O projeto está sendo implementado sob a coordenação da Secretaria de Estado de Saneamento, Habitação e Desenvolvimento Urbano (Sedurb), com amparo legal na Constituição Federal, na Lei de Contratação dos Consórcios Públicos (Nº 11.107/05) e decreto de regulamentação (Nº 6.017/07), na Lei do Saneamento Básico (Nº 11.445/07) e em outras leis federais.

O Espírito Santo sem Lixão tem por objetivos implantar infra-estrutura de destinação final ambientalmente adequada para 100% dos resíduos sólidos urbanos gerados no Estado; acabar com os lixões e recuperar as áreas que foram por eles degradadas; e gerar ambiente favorável para os municípios investirem em programas de redução e do reaproveitamento econômico do lixo (energia, reciclagem, compostagem etc.).

São condições essenciais à criação dos consórcios públicos regionais, que irão atuar na regulação e fiscalização da prestação dos serviços em regime de concessão; o rigor no licenciamento ambiental; a elaboração de projetos executivos com tecnologia de ponta; e a previsão de benefícios de escala e gestão eficiente.

O governo investirá aproximadamente R$ 50 milhões para construir quatro sistemas regionais, compostos, cada um, por estações de transbordo (transferência), transportes internos e aterro sanitário regional. Os aterros sanitários serão os centros de cada sistema regional e irão agregar tecnologia de ponta, segurança sanitária e ambiental, obtenção de créditos pelo seqüestro de carbono (Protocolo de Kyoto) e, mediante viabilidade, aproveitamento energético do biogás. Também são objetivos gestões e sistemas que garantam sustentabilidade ambiental, econômica, jurídica e social, por muitos anos, no mínimo até 2030. O Espírito Santo será o primeiro estado brasileiro a universalizar a destinação final ambientalmente adequada de resíduos sólidos urbanos.

Nos últimos anos, a partir de 2003, o Espírito Santo vem transformando o presente e construindo as bases para um novo futuro em terras capixabas. Implementamos um novo paradigma de desenvolvimento, ambientalmente sustentável, socialmente inclusivo e geograficamente desconcentrado. O objetivo principal é oferecer oportunidade de crescimento individual e coletivo a todos, com garantia de qualidade de vida e bemestar à atual e às futuras gerações. Nessa direção, o saneamento, ligado a questões ambientais e de saúde pública, entre outras, é determinante, representando, por isso, uma prioridade para nós.

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