Investimentos no setor de energia limpa se aceleram, apesar da crise financeira*

Com o fim do petróleo barato, as fontes de energia renováveis atraem interesses crescentes; Novos investimentos ultrapassam US$ 148 bilhões em 2007, um aumento de 60% em relação a 2006, e o crescimento deve continuar em 2008, segundo um estudo do PNUMA.

           As preocupações com as mudanças climáticas, o crescente apoio de governos nacionais, o aumento do preço do petróleo e as inquietações quanto à segurança energética combinaram-se para estabelecer mais um recode nos investimentos em energias renováveis e na eficiência energética das indústrias em 2007, segundo uma análise divulgada dia 1º de julho pelo PNUMA.

            “A indústria da energia limpa está amadurecendo e seus apoiadores mantêm-se corajosos (BULLISH).  Estas descobertas deveriam fortalecer os governos – do norte e do sul – para chegar a um novo acordo climático, profundo e significativo, até a convenção climática de Copenhagen, em 2009,” disse o diretor-executivo do UNEP, Achim Steiner.

            Mais US$ 148 bilhões de novos investimentos entraram no setor global de energia sustentável no ano passado, uma alta de 60% em relação a 2006 - apesar da crise de crédito que atingiu os mercados financeiros -, de acordo com o relatório “Tendências Globais no Investimento em Energia Renovável em 2008”, preparado pela New Energy Finance (Reino Unido) para a Iniciativa de Financiamento de Energia Renovável do PNUMA, baseada em Paris.

            A energia eólica atraiu novamente a maior parte dos investimentos (US$ 50,2 bilhões, em 2007), mas a energia solar teve um crescimento mais acelerado, atraindo US$ 28,6 bilhões de novos capitais e crescendo a uma taxa média anual de 254% desde 2004, guiada pelo surgimento de financiamento para projetos maiores.

            Desde o fim de 2007, no entanto, os investimentos no setor começaram a diminuir, com fusões e aquisições representando a maior parte dos fluxos, pois alguns importantes empreendedores do setor eólico venderam seus portfolios – muitos vendo que, com a redução do mercado de crédito, não iriam, eles mesmos, conseguir financiar seus projetos  - e a indústria americana do etanol sob reestruturação. Mas, no segundo trimestre de 2008, as principais áreas de investimento voltaram a crescer, apesar da continuidade da crise nos mercados financeiros. O capital especulativo e de private equity cresceram 34%  em relação mesmo período do ano anterior, e o capital investido na ampliação da capacidade cresceu 8%, assim como houve aumento das negociações em bolsa, com a oferta de ações da EDP Renováveis, de Portugal.

            “Assim como milhares de pessoas correram para Califórnia e para o Klondike no final do século XIX, a corrida pela energia verde está atraindo legiões de “garimpeiros” modernos em todas as partes do globo”, desse Steiner, que também é Vice-Secretário-Geral da ONU.

            “Um século depois, a diferença fundamental é que uma proporção maior dos que buscam a riqueza hoje podem encontrá-la. Com as temperaturas mundiais e o preço do petróleo subindo cada vez mais, torna-se óbvio para o público e investidores que a transição para uma sociedade de pouco carbono é um imperativo e uma inevitabilidade. Isto está atraindo um enorme fluxo de capitais, talentos e tecnologia. Mas ela torna-se inevitável somente se mecanismos de mercado criativos e políticas públicas continuarem a desenvolver-se para liberar, ao invés de frustrar a aurora da energia limpa.

            “O que está se descortinando não é nada menos que uma transformação fundamental na infra-estrutura energética mundial.”

            A maior parte dos recursos foram para a Europa, seguida dos EUA. Contudo, China, Índia e Brasil estão atraindo cada vez mais o interesse dos investidores e sua participação nos novos investimentos passou de 12% em 2004, para 22% em 2007, um aumento de 14 vezes em termos absolutos, de US$ 1,8  bilhão para 26 bilhões.

            O volume total de transações no setor de energia renovável foi de US$ 204,9 bilhões em 2007, dos quais US$ 98,2 bilhões foram para novos projetos de geração de energia renovável (sobretudo eólica nos EUA, China e Espanha), US$ 50,1 bilhões foram para o desenvolvimento de tecnologia e aumento de escala, e US$ 56,6 bilhões trocaram de mãos através de fusões e aquisições.
            Com 31 GigaWatts a mais de capacidade de produção, as fontes de energia renováveis representaram 23% do aumento de capacidade mundial em 2007, cerca de 10 vezes o da energia nuclear.

            Companhias de energia renovável representaram 19% e todo o novo capital levantado no setor energético nas bolsas de valores globais em 2007.

            “Investimentos no setor de energia renovável devem continuar a crescer expressivamente se as metas de redução de gases do efeito estufa, de aumento da energia renovável e da eficiência deverem ser atingidas”, diz o relatório.

            “Espera-se que os investimentos no setor cheguem a US$ 450 bilhões por ano até 2012, ultrapassando os US$ 600 bilhões ao ano em 2020. A performance do setor em 2007 e 2008 permite que tais níveis sejam atingidos.”

            Segundo Michael Liebreich, CEO da New Energy Finance Ltd, uma líder no provimento de pesquisas e análises no setor de energia limpa e mercados de carbono e co-autora do relatório: “2007 foi um ano emblemático para a indústria da energia limpa. A eólica continuou seu sólido progresso, com a capacidade instalada ultrapassando a marca dos 100GW. A energia solar está amadurecendo rapidamente, com investimentos maciços para reduzir o estrangulamento do silício e novas tecnologias começando a ganhar escala. Além disso, diversas outras tecnologias estão na fila para serem as próximas a começar a verdadeira marcha para ganhar escala – incluindo a biomassa e a geotérmica. A captura e estocagem de carbono é o único setor no qual não foi visto um progresso tão grande quanto esperado, com o ambiente regulatório e de financiamento para estes projetos mantendo-se obscuros e os prazos para os primeiros projetos comerciais sendo estendidos.”
            O relatório oferece um panorama dos investimentos em energia sustentável no mundo:

Eólica

            A energia eólica atraiu mais investimentos no ano passado do que qualquer outra tecnologia não baseada em combustíveis fósseis, incluindo grandes hidroelétricas e energia nuclear. Na Europa e nos EUA, o aumento da capacidade eólica em 2007 foi de 40% e 30%, respectivamente.
            Iberenova, o braço de desenvolvimento de energia eólica da gigante espanhola Iberdrola, levantou  US 7,2 bilhões em dezembro de 2007, no maior lançamento de ações da história espanhola e o quarto maior negócio público do ano.
            A capacidade instalada mundial ultrapassou 100GW em março de 2008.

Etanol

            Com os custos alimentares subindo e os preços do etanol caindo nos EUA, os investimentos de capital de risco e de private equity em biocombustíveis caiu quase um terço em 2007, para US$ 2,1 bilhões. Contudo, o investimento em biocombustíveis não secou em todo o mundo, migrando para Brasil, Índia e China.

Solar

            A energia solar disparou em 2007, aumentando a sua fatia de quase todas as categorias de investimento, atraindo de longe mais capital de risco e investimentos de private equity (US$ 3,7 bilhões), apesar da biomassa e a conversão de lixo em energia ter tido o crescimento mais rápido (432%).
            Em 2007, as companhias de energia solar chinesas levantaram US$ 2,5 bilhões nos EUA e na Europa.
Eficiência energética

            O investimento em tecnologias de eficiência energética atingiram um recorde de US$ 1,8 bilhão, um aumento de 78% em relação a 2006.
            A América do Norte atraiu  maior parte destes investimentos em 2007, seguida da Europa, apesar da sua legislação no setor ainda estar atrasada em relação ao velho continente.
            As construções oferecem o principal potencial para a economia de energia (e representam 40% de todas as emissões de gás carbônico). A eficiência na indústria e no setor de transportes seguem atrás, com o setor energético (talvez surpreendentemente) como o que menos permite economias.
            De acordo com a International Energy Agency, cada dólar investido em eficiência energética evita dois dólares de custo para criar um novo suprimento.

A Europa ainda lidera

            A Europa manteve-se como a região líder para investimentos, particularmente no financiamento em estágio avançado. Políticas de apoio, assim como uma base de investidores que sente-se a vontade para financiar projetos de energia renovável e uma competição mais intensa por acordos, levaram o financiamento de ativos europeus a um nível recorde de US$ 49,5 bilhões em 2007. Isto representou 62% de todo o financiamento de ativos no mundo.

Forte crescimento nos EUA

            Nos EUA, a aceitação da energia renovável tornou-se mais difundida, estendo-se para além do seu lugar tradicional na Califórnia, com o Texas liderando o avanço na energia eólica. Espera-se que a nova administração, em 2009, torne a eficiência energética e as energias renováveis uma prioridade política, enquanto a atual incerteza nos EUA (sobretudo quanto a possibilidade de se introduzirem regulações de CO2) colocou um número significativos de usinas de carvão em espera.
            O setor financeiro dos EUA também está se preparando para uma grande mudança na atitude política. Citi, JP Morgan Chase e Morgan Stanley se uniram para lançar uma séria de “Carbon Principles”, que servirão de guia para empréstimos e aconselhamento a grandes companhias de energia nos EUA.
            Os bancos desenvolveram os princípios para avaliar os riscos de financiamento de projetos que emitem muito carbono, devido a crescente incerteza acerca da política climática regional e nacional. Eles também irão considerar a inclusão de companhias elétricas com eficiência energética e fontes renováveis em seus portfolios como parte de um “reforço  na diligência do processo”.

China

            Em 2007, investimentos na capacidade de energia renovável não-hídrica na China mais do que quadruplicou, para US$ 10,8 bilhões, e a capacidade eólica saltou para 6GW.
            O relatório diz que as Olimpíadas de Pequim 2008 “estimularam a vontade política do país e fortaleceram programas de promoção de energia limpa e diminuição da intensidade elétrica.”
            Além de uma onda de companhias chinesas de energia solar sendo listadas nas bolsas americanas e européia, as atividades no mercado de ações estão crescendo também em casa. A empresa Goldwind, do setor eólico, levantou US$ 243 milhões na primeira oferta de ações dedicada somente a energias renováveis, na bolsa de Shenzhen, no ano passado.

Brasil

            O Brasil é o maior mercado mundial de energias renováveis, graças a sua opção consolidada pela hidroeletricidade e a indústria do bioetanol.
            Os investimentos em energia sustentável no Brasil continuaram a ser dominados pelo etanol em 2007, já que os investidores trocaram o mercado de etanol norte-americano pelo brasileiro. A Infinity Bio-Energy (listada na Londres AIM) e a gigante americana do agronegócio Cargill fizeram importantes investimentos no setor.
            Além do investimento na produção de etanol, o investimento na cogeração da cana-de-açúcar, a produção de biodiesel e de energia eólica também está se acelerando.

Índia
           
            O financiamento de ativos na Índia aumentou significativamente, para US$ 2,5 bilhões, principalmente para projetos eólicos de aumento da capacidade em 1,7GW. Estas instalações colocam o país como quarto no mundo, tanto em termos de aumento da capacidade instalada em 2007, quanto em capacidade total instalada.
            Fundos levantados nas bolsas da Índia atingiram US$ 628 milhões em 2007, apesar das companhias olharem crescentemente para mercados externos para novos capitais, levantando US$1,4 bilhão no exterior, em 2007. As operações no mercado público foram marcadas por uma série de Bonds Conversíveis de Moeda Estrangeira de conhecidas companhias indianas de energia renovável, como a Suzlon (US$ 500 milhões captados) e Moser Baer (US$ 150 milhões) .
            O ano de 2007 também viu alguns agressivos acordos transnacionais envolvendo compradores indianos ou chineses, incluindo a aquisição da Repower pela Suzlon por US$ 1,6 bilhão e a da fabricante alemã de lâminas para turbinas NOI Rotortechnik pela China National Building Material Group.

África

            A África continua atrasada em relação as outras regiões em termos de investimentos em energia sustentável. Os ativos financeiros, no entanto, chegaram a US$ 1,3 bilhão em 2007 (cinco vezes o valor de 2006), revertendo um declínio gradual desde 2004 e testemunhando o aumento da capacidade instalada. Os investimentos foram sobretudo em biocombustíveis e energia geotérmica. Projetos de larga escala de energia solar promissores foram iniciados no norte da África e alguns sinais de mudança na África do Sul, onde metas para energias renováveis foram estabelecidas e o primeiro projeto eólico foi licenciado.
            A África Subsaariana, “indiscutivelmente a região que mais tem a ganhar com as energias renováveis”, permanece inexplorada, segundo o relatório.

Financiamento de carbono mudando para o setor privado

            USS$ 13 bilhões haviam sido investidos em fundos de carbono em 2007, uma fonte de investimentos importante para projetos do “Mecanismo de Desenvolvimento Limpo” (MDL), em países em desenvolvimento. A maior parte destes novos investimentos foram para fundos privados, já que o comércio de carbono está ficando mais estabelecido.
            O primeiro trimestre de 2008 viu a emergência de interesses privados no mercado pós-Quioto, com investidores começando a procurar créditos de MDL pós-2012 elegíveis para troca no EU Emissions Trading Scheme.

Mercado se expande, e se diversifica incorporando novas tecnologias

            Investimentos não só aumentaram em 2007, mas se expandiram e se diversificaram. Os mercados de capitais tradicionais estão plenamente receptivos as companhias de energia sustentável, segundo o relatório.
            2007 também viu uma maior atividade nas assim chamadas “tecnologias da nova geração”, como etanol de celulose, tecnologia solar com “thin film” e eficiência energética.
            Os investimentos com capital de risco inicial aumentaram 112%, para US$ 2 bilhões em 2007, impulsionados pelo interesse em tecnologias renováveis emergentes, mais do que somente aquelas quase prontas para comercialização.
            “A vontade de olhar além das tecnologias maduras sugere que os investidores estão levando a energia renovável e a eficiência energética cada vez mais sério”, diz o relatório.

Investimento público

            O investimento público em geral, através de bolsas e outros mercados, mais do que dobrou em 2007, para US$ 23,4 bilhões, dos US$ 10,6 bilhões em 2006.
            O Índice Wilderhill New Energy Global Inovation Index (NEX) subiu 56,9% em 2007. No primeiro trimestre de 2008 o índice caiu 17,9%, mas já recuperou metade disso no segundo trimestre.
            Enquanto isso, ativos sob administração em fundos de energia limpa subiram para US$ 35 bilhões em 2007.
            Um recorde de 17 novos fundos públicos de equity em energia limpa surgiram em 2007, contra somente 5 em 2006.  Muitos deses eram fundos de “mudanças climáticas” lançadas por tradicionais companhias de investimentos, incluindo HSBC, F&C, Schroders, Deutsche Asset Management e Virgin Money.
            A chegada destes pesos-pesados ao mercado “deve encorajar grandes companhias negociadas publicamente, nas quais eles normalmente investem, a expandir-se em direção a energia sustentável e outros setores de pouco carbono”, diz o relatório.

Pesquisa & desenvolvimento

            Gastos com pesquisa & desenvolvimento em energia limpa e eficiência energética foram de USS 16,9 bilhões em 2007, incluindo P&D corporativo de US$ 9,8 bilhões, e P&D de governos de US$ 7,1 bilhões.
            Europa e Oriente Média tiveram a maior atividade de P&D corporativo, seguidos pelas Américas e a Ásia. Padrões de P&D de governo são o inverso, com países asiáticos (especialmente Japão, China e Índia) investindo relativamente mais em P&D.

Fusões e aquisições corporativas

            As fusões e aquisições corporativas aumentaram 52%, para US$ 25,7 bilhões em 2007.
            Mohamed El-Ashry, Diretor da Renewable Energy Global Policy Network REN21 (Rede de Política Global em Energia Renovável) diz que: “Uma razão para o crescimento constante das energias renováveis é a uma simples questão econômica: enquanto os custos das energias fósseis estão aumentando, os custos das tecnologias renováveis estão diminuindo. E com as renováveis não há custos de combustíveis nem emissões de carbono.”
            De acordo com Yvo de Boer, Secretário Executivo da Convenção Quadro das Nações Unidas para Mudanças Climáticas: “A tendência positiva no mercado de energias renováveis é, ao menos em parte, uma resposta empresarial para uma expectativa de política nesta área. Se tais expectativas não se concretizarem, as linhas de base convencionais serão os principais pilares para decisões de investimentos.
            “Segundo a IEA, é esperado um aporte maciço de US$ 20 trilhões em investimentos para atender as demandas energéticas em 2030. Se tais investimentos não forem feitos de uma maneira ambientalmente amigável, as emissões de gases do efeito-estufa pode aumentar em até 50% em 2050, enquanto a ciência nos diz que elas devem ser reduzidas em 50%, até 2050. Eu ouço empresários clamando por sinais políticos claros para tomar as decisões de investimentos corretas atualmente. Estabelecendo uma meta de longo prazo, para 2050, é útil, mas acho que dar-se-ia mais clareza aos investidores se países ricos indicassem o que pretendem ser em 2020 ou 2030.”

Contatos

            Nick Nuttal, UNEP Spokesperson, on +41-7-596-5737 (m); Nick.Nuttall@unep.org
            Robert Bisset, UNEP Spokesperson for Europe, +33-1-4437-7613, 33+6-2272-5842 (m), Robert.Bisset@unep.fr
            Terry Collins, +1-416-538-8712, +1-416-878-8712 (m), Terry.Collins@rogers.c

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