Energia - Pobreza e Riqueza - Planeta em perigo*.

 

O uso da energia, que dobra a cada geração, afeta o planeta – e a sociedade – mais do que qualquer outra atividade humana. Ele tem o maior impacto sobre o meio ambiente, é uma das maiores causas de doenças ao redor do mundo, e prevê um dos indicadores mais claros do abismo que existe entre ricos e pobres.

Duas de cinco pessoas na Terra – algo em torno de 2,5 bilhões – têm que viver sem formas modernas de obtenção de energia, recorrendo a madeira, carvão vegetal, estrume de animais e outras formas de “biomassa tradicional” para cozinhar seus alimentos e aquecer suas casas. Eles normalmente têm que queimá-los em fogueiras ou fornos abertos, e a fumaça – um coquetel de química venenosa – circula em suas moradias, provocando doenças.

Todo ano um milhão de crianças com menos de cinco anos de idade morre por inalar essa fumaça, o que também ocorre com tantas outras crianças e adultos. Foi descoberto que a morte de uma criança tanzaniana por infecção respiratória é três vezes mais provável que a de uma criança saudável por ter dormido num quarto com um fogão aberto. Além disso, o uso de madeira e estrume causa desflorestamento e rouba os nutrientes da terra, causando erosão do solo, colheitas menores e fome crescente. Não obstante, o mais pobre um país é, o mais sua população tem que recorrer a esses combustíveis, quanto mais desmatam, mais adoecem e morrem.

Do outro lado do abismo internacional, nos países com maior renda, um quinto da população usa a energia com tanto desperdício que eles não apenas prejudicam sua saúde com a poluição que causa doenças respiratórias, eles estão mesmo modificando o clima que permitiu o florescimento dos seres humanos.

Sem dúvida, a Terra está esquentando. Os dez anos mais quentes já registrados ocorreram desde 1990, sendo 2005 o mais quente de todos. Nas últimas décadas, a calota glacial do Ártico encolheu mais de um quarto, e perdeu metade de sua grossura, enquanto os vastos bancos de gelo da Antártida desintegraram, mudando a aparência do continente gelado. Há ainda sinais preocupantes de que os lençóis de gelo da Groelândia e da Antártida estão começando a derreter, um processo que poderia eventualmente aumentar o nível do mar em doze metros, inundando terras e cidades ao redor do mundo.

O nível do mar já está subindo duas vezes mais rápido do que nunca na história humana, principalmente porque suas águas estão se expandindo com o calor, assim como acontece com as linhas de trem durante o verão. Enquanto as ondas quebram cada vez mais para dentro da costa, populações de atóis no Pacífico se preparam para deixar suas ilhas para sempre, antes que elas inundem e fiquem inabitáveis.

Enquanto as temperaturas aumentam, também aumenta a quantidade de energia no sistema climático global, criando tempestades cada vez mais violentas. A temporada de furacões de 2005 no Atlântico foi um recorde- e teve três das seis tempestades mais violentas a jamais atingir os Estados Unidos da América, incluindo o furacão Katrina, que inundou Nova Orleans. A medida que a Terra esquenta, há um perigo crescente de mudanças catastróficas repentinas – como o distúrbio na Corrente do Golfo, que pode mergulhar a Europa num clima subártico, mesmo com o resto do mundo esquentando.

Como se tudo isso não fosse suficiente, os níveis crescentes de dióxido de carbono emitidos por combustíveis fósseis também estão envenenando os mares, por meio de um processo completamente diferente. Os oceanos estão absorvendo muito do dióxido de carbono e, enquanto o fazem – por incrível que pareça – estão se tornando ácido carbônico muito diluído. Sua química está mudando de um modo que não era visto há 20 milhões de anos, matando o plâncton, do qual depende toda a vida marinha.

É o pior dos dois mundos em termos de energia. Pobreza energética e riqueza energética – dois lados da mesma moeda – estão provocando prejuízos imensos às pessoas do planeta.

Os ricos precisam urgentemente diminuir a queima de combustíveis fósseis e reduzir o desperdício, economizando energia; muitos especialistas falam por um rápido aumento de eficiência em quatro vezes. Os pobres precisam aumentar seu uso de energia, sem desperdício, para se desenvolver e sair da pobreza. Uma nova e eqüitativa revolução é uma longa dívida: energias modernas e acessíveis para os pobres, alternativas limpas para os combustíveis fósseis dos ricos, e a luta contra o aquecimento global para todos.

* Tradução livre de Anna Carolina Mendes da Silva, estagiária do Instituto Brasil PNUMA, de artigo da revista TUNZA Volume 4 No. 2, de 2006, publicada pelo PNUMA.

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