Gestão ambiental participativa no Rio de Janeiro

Carlos Minc

Como secretário estadual do Meio Ambiente do Rio de Janeiro, manterei meu comportamento de sempre: democrático, combativo, propositivo e empreendedor. Em 20 anos de mandatos sucessivos, como deputado estadual, acumulamos as principais idéias do movimento ecológico, que temos agora a responsabilidade de levar adiante, com o apoio e a participação de todos.

Uma das principais atuações da secretaria será a reestruturação dos órgãos ambientais, que estão sucateados e desmotivados. Com o nosso projeto de criação de uma agência ambiental, reunindo os órgãos ligados à secretaria - Feema, IEF e Serla -, o que deverá ocorrer até o final do ano, simplificaremos os procedimentos, com mais agilidade e menos corrupção localizada. Não tem sentido haver três licenciamentos, três fiscalizações, três bibliotecas, três divisões de educação ambiental.

A partir da realização de concurso público para cem técnicos, direcionando boa parte para as seis agências regionais do interior que estamos criando e reforçando, poderemos desconcentrar os órgãos e atuar diretamente junto aos ecossistemas. Ao desconcentrar a fiscalização e o controle, trabalharemos junto aos municípios, de forma integrada. Por decretos e convênios, passaremos para as prefeituras que estejam capacitadas todos os licenciamentos de atividades de menor impacto ambiental, como prédios e postos de gasolina, que hoje estão na Feema na mesma pilha que as siderúrgicas, tornando mais lento o trabalho de licenciamento.

Trabalhos preventivos já foram acertados com a ministra Marina Silva e com o secretário de Estado de Meio Ambiente e de Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais, José Carlos Carvalho, com a intenção de evitar novos acidentes como o da lama que contaminou o Rio Muriaé ou, ao menos, minimizá-los. Nas inundações, reunimo-nos com os prefeitos da Baixada Fluminense e de outras regiões, traçando um planejamento inédito de uso das dragas com contrapartida dos municípios: para determinada quantidade de areia retirada por draga da Serla, a prefeitura se compromete a plantar árvores na margem do rio em questão ou realocar em locais seguros casas que estejam em faixas de proteção dos rios. Essa prevenção será de grande valia para a população e para o meio ambiente, já que poderemos nos antecipar aos fatos.

A Lei do ICMS Verde ou Royalties Ecológicos deverá ser logo implementada, já que não aumenta o imposto, mas introduz um quinto parâmetro na distribuição dos 25% do valor total da arrecadação do ICMS que são destinados aos municípios. Esse novo critério incorpora as áreas protegidas de águas e florestas, a existência de secretarias municipais de Meio Ambiente, com seus respectivos fundos e conselhos, e a qualidade da gestão. O objetivo é motivar as prefeituras, tornando- as aliadas da causa, e com mais recursos, protegendo e fiscalizando mais e melhor os ecossistemas.

Nesse começo de gestão, me deparei com muitos acidentes ambientais, como o da empresa Bayer S.A, na Baixada Fluminense, e decisões estão sendo tomadas de imediato, com o intuito de melhorar os planos de emergência, a ampliação do monitoramento sistemático e o atendimento à saúde. Reunimos com a Agência Reguladora de Energia e Saneamento para a liberação de recursos, antecipando a conclusão do saneamento da Lagoa de Araruama e da Bacia do Rio São João, de 20 para cinco anos.

Antecipar os fatos é nossa política, como o que ocorreu na Praia da Barra, que foi um exemplo claro de nossa rápida atuação, para atender a uma situação emergencial que colocava em risco a saúde dos banhistas: interditamos um trecho de 200 metros da praia como prevenção sanitária e para alertar sobre a urgência do tratamento do esgoto.

Outro compromisso é garantir a aplicação integral dos recursos do Fecam (Fundo Estadual de Conservação Ambiental), que criamos na Constituição Estadual de 1989, com 20% dos royalties do petróleo. Esse percentual foi reduzido, em 2003, para apenas 5%. Vamos agora aplicar o Fecam, com recursos reforçados, exclusivamente em projetos ambientais e de saneamento das baías de Guanabara e Sepetiba, de rios e lagoas.

Incentivaremos os municípios a criar consórcios com seus vizinhos para receberem financiamento para aterros sanitários que acabem com os lixões poluidores. Nesse sentido, esses municípios deverão iniciar a coleta seletiva domiciliar de lixo e contratar conjuntamente uma empresa para gerir os aterros por no mínimo dez anos. Um aterro mal gerido vira lixão em 15 dias.

Para reforçar o incentivo aos municípios e a população, criamos o Dia de Limpeza dos Rios, em 20 de janeiro, que, em seu primeiro ano de realização, mobilizou 2.400 pessoas, que retiraram lixo de 43 rios em todo o estado. Atividade que, a partir deste estímulo inicial, que contou com o apoio do governador Sérgio Cabral, irá continuar ao longo do ano com educação ambiental e apoio às cooperativas de catadores.

A ampliação do Parque Estadual da Ilha Grande, o esforço com a Prefeitura de Angra dos Reis pela assinatura do Plano Diretor e pela definição do número máximo de visitantes da ilha também foram um importante sinal de nosso empenho em defesa dos principais ecossistemas do estado.

Para que muitos projetos e idéias pudessem acontecer e serem resolvidos da melhor maneira possível, uma mudança de postura foi fundamental. Como no caso em que entregamos em tempo recorde a Instrução Técnica do Comperj (Complexo Petroquímico da Petrobrás), em Itaboraí, e rejeitamos a proposta do ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, para a construção de uma térmica a carvão em Itaguaí, que poderia transformar esta bacia aérea já congestionada em uma nova Cubatão. Por sua vez, a Serla concedeu, em janeiro, 111 outorgas de água para empresas públicas e privadas, como a AmBev, Eletrobrás e Cedae, que passarão a pagar pelo seu uso. Nos 15 anos anteriores, foram concedidas apenas 106 outorgas. Queremos avançar com a agilização do licenciamento e, simultaneamente, ampliar a qualidade da defesa ambiental.

Estamos investindo na integração com as secretarias de Educação e de Ciência e Tecnologia para implementar a Lei de Educação Ambiental em todas as escolas públicas estaduais, em que cada uma adotará rios, encostas e implantará a reciclagem de lixo. Com a Secretaria de Transportes, avançaremos com programa de uso do gás natural nos ônibus. Junto com a Secretaria de Segurança Pública, com a Polícia Federal e o Ibama, criamos a Cicca (Coordenação Integrada de Combate aos Crimes Ambientais), para agilizar - com apoio de equipes do Ministério Público - o ajuizamento de ações contra os criminosos.

Implantamos na secretaria a pioneira Superintendência de Mudanças Climáticas, Créditos de Carbono e Biodiversidade, para elaborar um balanço de emissões atmosféricas e um plano estadual de reduções dos gases-estufa. Como primeira iniciativa, estamos organizando uma rede de coleta de óleos vegetais usados - óleos de cozinha - para a produção de biodiesel, transformando poluição em energia menos poluente. Em março, a Refinara de Manguinhos estará inaugurando sua usina de reciclagem de biodiesel, que contará com o apoio de rede de hotéis, de supermercados e de cooperativas de catadores, entre outros parceiros.

Estamos também com uma forte articulação com a Secretaria de Estado de Saúde para os programas de defesa da saúde do trabalhador e das tecnologias limpas. Além de forte integração com a Secretaria de Agricultura para fazer cumprir, com prazos mais realistas, a lei que elimina progressivamente as queimadas de cana de açúcar e outras, com desperdício de biomassa e emissões de CO2.

Estamos animados com a nossa equipe e com o apoio do governador Sérgio Cabral, que se mostra cada vez mais participativo nos eventos, entrando nos rios para recolher lixo, assinando in loco decreto de ampliação do Parque Estadual da Ilha Grande e marcando presença na Serla para as outorgas de águas. Apesar da crise, da falta de recursos, dos sucessivos desastres, estamos confiantes e determinados a ampliar a consciência ambiental com a participação da sociedade para uma radical mudança de comportamento. O desafio é enorme e só terá êxito se todos participarem, fazendo a sua parte.

O meio ambiente agradece.

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