Achim Steiner
Agora faz mais de seis meses
desde que assumi o posto de diretorexecutivo
do Programa das Nações
Unidas para o Meio Ambiente e tenho
que dizer que estes tempos têm sido
um verdadeiro furacão cheio de novos
desafios, possibilidades e surpresas.
Surpresas porque apesar de possuir
muitos conhecimentos e ter familiaridade
com o Pnuma antes de chegar
aqui, tenho ficado atônito com a
escala das atividades sendo desenvolvidas
em diversos campos na nossa
sede, nas regiões e via parcerias - o
muito ativo processo do Global Environment
Outlook no Brasil sendo apenas
uma das áreas que me vêm à
cabeça.
Desafios - porque integrar completamente
essa mistura de atividades,
para que elas se unam em uma única
direção, de forma fluida e frutífera, é algo
que necessita de atenção urgente.
Desafios também como resultado
da agenda de reformas do secretáriogeral,
que pede que o Pnuma e o resto
do sistema da ONU trabalhem cada
vez mais eficientemente em conjunto
em uma causa comum em direção ao
desenvolvimento sustentável.
Esses desafios se traduzem em
possibilidades e oportunidades reais,
que talvez não tenham sido vislumbradas
há uma geração.
E o meio ambiente, longe de estar às margens do debate político, agora
está cada vez mais próximo do centro
com governos, negócios, a comunidade
científica e a sociedade civil olhando
como nunca para a ONU e o Pnuma
à procura de instruções, direções e, o
mais importante, de soluções.
É realmente um privilégio ser o diretor-
executivo do Pnuma nesse momento
de um novo despertar e de descobertas
- em um momento de interesse
renovado no meio ambiente como fonte
de um desenvolvimento de longa duração,
mas também como uma fonte
potencial de competição e conflitos.
Este novo despertar se deve em
larga medida ao entendimento difundido
de que estamos vivendo com um
tempo emprestado, com muitos dos
ecossistemas do planeta e seus produtos
e serviços de base natural - o
sustento de toda a vida na Terra - em
um estado periclitante.
O movimento ambiental tinha, até
muito recentemente, sido visto como
um disseminador de declarações e
previsões alarmistas, mas esta visão
parece ter mudado.
Seus alertas passados sobre o abuso
de recursos naturais finitos e o
gerenciamento insustentável de bens
e serviços nacionais, regionais e globais
em muitas áreas se concretizaram
em uma larga gama de questões
- a perda de biodiversidade, a falta de
água e o colapso da pesca até a preocupação
maior das mudanças climáticas
são apenas alguns exemplos.
A Avaliação de Ecossistemas do
Milênio (MA), um trabalho de cerca de
1.300 cientistas e especialistas de 95
países, no qual o Pnuma teve um papel
importante, confirma as preocupações
de longa data dos ambientalistas.
Seu primeiro relatório, publicado em
março de 2005, antes da Cúpula Mundial
realizada naquele ano, concluiu
que aproximadamente 60% dos serviços
de ecossistemas - como água
doce, pescas de captura, regulação
do ar e da água e a regulação do clima
regional, perigos naturais e pestes -
estão no momento sendo degradados
ou utilizados de forma insustentável.
Os cientistas fizeram um alerta de
que as conseqüências danosas dessa
degradação poderiam se tornar
significativamente piores nos próximos
anos, minando esforços de se
trazer equidade entre nações e de se
atingir as Metas de Desenvolvimento
do Milênio.
O MA também foi importante ao
propor recomendações simples de
como reverter o declínio apoiado por
fortes argumentos econômicos - argumentos
que eu vejo como sendo centrais
para o trabalho do Pnuma nos
próximos anos.
O relatório diz que uma área úmida
intacta no Canadá vale US$ 6 mil por
hectare versus US$ 2 mil por hectare
para terras que foram limpas para agricultura
intensiva.
Manguezais tropicais intactos -
ecossistemas costeiros que são berçários
para peixes, filtros naturais de
poluição e defesas costeiras - valem
cerca de US$ 1 mil por hectare. Uma
vez removidos para dar lugar a fazendas
de camarão, seu valor cai para
cerca de US$ 2 mil por hectare.
A Avaliação também estabelece um
valor para pântanos. Ela estima que o
Muthurajawela Marsh, um pântano
costeiro de mais de 3.000 hectares no
Sri Lanka vale cerca de US$ 5 milhões
por ano devido a serviços como o
controle de enchentes.
Perdas resultantes de danos por
espécies alienígenas invasivas na região
do Cabo Floral da África do Sul
estão calculadas na ordem de US$ 2
mil por hectare.
O valor recreativo dos recifes de
corais nas Seis Áreas de Gerenciamento
Marinho das ilhas Havaianas
varia de US$ 300 mil a dezenas de
milhões de dólares ao ano.
Estudos da Argélia, Itália, Portugal,
Síria e Tunísia apontam para o valor de
florestas intactas. Estes estimam que
o valor da madeira e lenha de uma
floresta vale menos de um terço quando
comparado com o valor dos serviços
como proteção de bacias hidrográficas
e recreação para a absorção de poluentes
como gases do efeito estufa.
Também existem novas descobertas
sobre a ligação entre a disseminação
de doenças e a destruição ambiental.
Estudos na Amazônia têm concluído
que para cada 1% de aumento
de desmatamento, existe um aumento
de 8% no número de mosquitos
transmissores de malária.
Investir na reabilitação de ecossistemas
danificados e degradados também
provavelmente será um bom investimento.
Um sinal da agenda de reformas do
Pnuma é a nova Iniciativa de Pobreza
e Meio Ambiente com o Programa
das Nações Unidas para o Desenvolvimento.
Um relatório conjunto explicitamente
utilizando o argumento econômico
para o meio ambiente na erradicação
da pobreza foi apresentado no Fórum
Mundial.
Ele diz, por exemplo, que cada dólar
investido no combate à degradação de
terras e à desertificação pode conservadoramente
gerar mais de três dólares
em benefícios econômicos, ajudando a
combater a pobreza entre os milhões
que vivem em terras frágeis.
Dinheiro poderia ser gasto em medidas
tradicionais de conservação do solo
como terraços.
Enquanto isso, cada
dólar gasto em fornecer água limpa e
saneamento pode dar impressionantes
níveis de retorno, de até US$ 14.
Aqui os benefícios econômicos surgem
de áreas incluindo custos de
saúde reduzidos, aumento de produtividade
com os trabalhadores gastando
menos tempo procurando água e maiores
freqüências nas escolas.
O capital natural também serve como
seguro contra calamidades como secas
ou perdas de colheitas. Estudos do
Brasil mostram que fazendeiros no Parque
Nacional dos Tapajós, na Amazônia,
se voltam para produtos florestais
como nozes e frutas quando o rendimento
de suas colheitas despenca.
A economia de se evitar danos de
mudanças climáticas também tem vindo
à tona via o relatório Stern, publicado
antes das reuniões da convenção
do clima que aconteceram na ONU,
em Nairóbi, em novembro.
Se nenhuma atitude for tomada,
então nós corremos o risco de aumentar
as temperaturas medias em até
5ºC de níveis pré-industriais, resultando
no equivalente de uma perda de 5%
de PIB anualmente.
Em contraste, os custos de ações
para reduzir emissões de gases do
efeito estufa para se evitar os piores
impactos podem ser limitados a cerca
de 1% do PIB global anualmente.
O relatório também estima que reduzir
emissões iria de fato fazer o
mundo ficar melhor. Uma estimativa
indica que, com o tempo, uma mudança
para uma economia global com
pouco uso de carbono iria gerar benefícios
de US$ 2,5 trilhões por ano.
É nesse clima de consciência que
se aprofunda sobre a degradação ambiental,
aliado ao reconhecimento crescente
de que recursos de base natural
têm um grande e cada vez mais quantificável
valor, que agora está se moldando
a estratégia do Pnuma como a
autoridade ambiental global.
O Brasil do início do século 21 está
em uma posição ideal para ajudar na
promoção dessa agenda ambiental e
econômica.
A dinâmica econômica do
Brasil o capacita para se tornar um ator
chave nesta arena global em que as
decisões tomadas em Brasília ecoam
por toda e região e o globo. Sob a atual
administração, grandes passos têm
sido dados para se diminuir a pobreza.
De fato, o ultimo relatório da Comissão
Econômica para a América Latina
e Caribe declara que o Brasil já alcançou
a Meta de Desenvolvimento do
Milênio de reduzir a proporção de pessoas
extremamente pobres à metade
até 2015.
Como a China, a Índia e a África do
Sul, os recursos naturais e de base
natural do Brasil são uma fonte enorme
de riqueza que, se for gerenciada
de forma sustentável, pode sustentar o
desenvolvimento e trazer prosperidade
para todo seu povo.
A recente decisão de designar mais
de 15 milhões de hectares do leste da
Amazônia como a maior reserva de
floresta tropical do mundo ressalta
esse entendimento e quem sabe pode,
em 20 ou 30 anos, provar ser uma das
decisões de uso de terras mais lucrativa
da história do Brasil.
Como outras economias em rápido
crescimento, as decisões de comércio
e investimento do Brasil agora têm uma
pegada que vai além de suas fronteiras
e, portanto, têm o poder de determinar
se o desenvolvimento sustentável será
melhorado em outros lugares.
Um caso a ser ressaltado é a moratória
de dois anos, acertada em julho
passado, em se produzir soja em solo
amazônico recém desmatado.
O acordo
não só incluiu companhias brasileiras,
mas também grandes multinacionais
operando em áreas como exportação
de óleo, processamento, comércio
e redes de fast-food como o
McDonalds.
Esse tipo de liderança internacional,
demonstrada no Brasil, é de urgente
necessidade em um mundo globalizado.
Uma liderança que nasce
não só de sentimentalismo pela vida
selvagem e as florestas, mas também
está enraizada nas evidências duras e
cada vez mais contundentes de que
conservar o meio ambiente localmente,
regionalmente e globalmente faz
sentido para a sustentabilidade econômica
nacional. |