Ações ambientais para o desenvolvimento: o papel do BNDES

Demian Fiocca

Atualmente, o modo pelo qual são consideradas as políticas e ações ambientais, tanto públicas como privadas, difere daquele predominante há três décadas. Havia, naquela época, uma visão estreita de que meio ambiente significava restrição ao desenvolvimento. A concepção atual, ao contrário, admite que o cuidado com o meio ambiente pode ser um instrumento indutor e qualificador do desenvolvimento.

Para o BNDES, essa nova visão é fundamental. A atuação ambiental do banco, como principal agente de financiamento de longo prazo para empresas brasileiras, permite combinar o uso de instrumentos econômicos a aqueles ligados à intervenção do Poder Público, com o fim último de promover investimentos em atividades ambientalmente sustentáveis.

Em todo o mundo, as instituições financeiras são cada vez mais cobradas pela sociedade, investidores, acionistas e movimentos socioambientais sobre a consideração da questão do meio ambiente no âmbito de suas atividades, marcadamente em relação ao impacto ambiental dos projetos financiados. Nos bancos de desenvolvimento, o tema ganha maior relevância. Para essas instituições, a promoção do desenvolvimento sustentável não é apenas uma questão de responsabilidade corporativa, e, sim, uma das principais missões de sua organização.

No BNDES, as primeiras iniciativas de cunho ambiental datam de 1976. Nessa ocasião, um convênio com a Secretaria Especial de Meio Ambiente, precursora do Ministério do Meio Ambiente, foi firmado para implementar normas de proteção ao meio ambiente e de controle da poluição industrial. 

Com a instituição, pela Lei nº 6.938, de 31.08.1981, da Política Nacional do Meio Ambiente, a contratação das operações de financiamento passou a ser condicionada à regularidade ambiental dos projetos. Em 1989, foi criada uma unidade ambiental no BNDES com a atribuição de coordenar a introdução da variável ambiental nos procedimentos operacionais do banco.

Em 1994, o BNDES aderiu ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente - Iniciativa para o Setor Financeiro (Pnuma-IF) com a assinatura da Carta de Princípios dos Bancos para o Desenvolvimento Sustentável. No Brasil, foi instituído o Protocolo Verde, em que os principais bancos públicos federais se comprometeram em adotar os princípios expostos na carta.

Em 2006, o BNDES passou a adotar uma nova Política Ambiental, que acolheu elementos da anterior, lançada em 1999. Todo o histórico de iniciativas pioneiras do banco também serviu como referência, principalmente as que envolviam procedimentos internos e o apoio a projetos ambientais.

Quanto aos procedimentos internos, importa implementar na prática os instrumentos de análise ambiental de projetos - um desafio dos bancos em todo o mundo. O BNDES foi pioneiro no Brasil ao adotar no início dos anos 1990 a classificação de risco ambiental dos projetos. Hoje existe um grande esforço de capacitação técnica dos analistas do banco, por intermédio de cursos e seminários, assim como de ampliação das informações sobre o perfil energético e ambiental dos setores econômicos e sua evolução tecnológica.

Esse é um outro diferencial. Nossa preocupação crescente é não apenas verificar a licença, não apenas avaliar os impactos ambientais dos projetos e suas medidas mitigadoras, mas também acompanhar a evolução do desempenho ambiental das empresas, tendo em vista a competitividade do setor e a qualidade ambiental para a sociedade. 

Nesse sentido, a nova Política Ambiental estabeleceu diretrizes e instrumentos em linha com ações de desenvolvimento permeadas por estratégias ambientais. O BNDES pode participar na formulação dessas estratégias, na sinalização de investimentos e na aplicação de políticas e programas de financiamento específicos.

No que se refere aos instrumentos da Política Ambiental, antes de tudo é preciso ressaltar que o BNDES, por intermédio de suas linhas tradicionais de suporte financeiro, já contribui para a melhoria do desempenho ambiental dos setores Fiocca: principal agente de financiamento de longo prazo para empresas brasileiras, o BNDES foi pioneiro no país, em 1990, ao adotar a classificação de risco ambiental dos projetos analisados OUTUBRO/NOVEMBRO DE 2006 - Nº 91 5 Demian Fiocca é presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) Divulgação produtivos e de infra-estrutura, na medida em que financia a modernização de máquinas, equipamentos e processos. O banco já apóia os setores de saneamento ambiental, energias renováveis, controle e prevenção de poluição, cadeias de reciclagem e reflorestamento, entre outros.

O ramo das energias renováveis oferece um exemplo emblemático. Em 2005, foram aprovados 39 projetos com financiamento total da ordem de R$ 2,3 bilhões para pequenas centrais hidroelétricas, co-geração à biomassa, parques eólicos e biodiesel. No caso da propalada expansão da produção brasileira de álcool nos próximos anos, além do apoio tradicional ao plantio e às plantas industriais, duas oportunidades constituem o algo mais que a Política Ambiental do BNDES enseja no suporte de atividades sustentáveis.

Primeiro, o banco oferece melhores condições de financiamento para projetos do setor sucroalcooleiro que incluam maior produção de energia elétrica excedente a partir da co-geração a bagaço de cana. O objetivo é aproveitar o grande potencial de geração de energia elétrica existente no setor, com benefícios diretos para o sistema energético brasileiro. Segundo, a expansão das lavouras de cana deverá ocorrer em áreas de pastagens, nas quais podem ser agregados projetos de reflorestamento de Áreas de Reserva Legal e Áreas de Preservação Permanente conforme a legislação, essenciais para a manutenção dos recursos hídricos e da biodiversidade. Vinculado ao reflorestamento de áreas degradadas, o álcool brasileiro pode ganhar uma marca internacional de grande valia para as exportações.

A abrangência da atuação ambiental do BNDES ganhou um reforço com a criação da Linha de Meio Ambiente, que prevê o apoio com condições diferenciadas a projetos de saneamento, aterros sanitários, reciclagem, projetos voluntários de tecnologias industriais mais limpas, recuperação e preservação de ecossistemas e biodiversidade, projetos de planejamento e gestão ambientais e recuperação de passivos ambientais.

Devido à importância do estímulo à eficiência energética no país, foi lançada uma linha de crédito inovadora, específica para projetos que economizem energia, o Proesco, com ênfase no apoio às Empresas de Serviços de Conservação de Energia (Esco). As Escos são empresas que investem nas instalações de seus clientes e compartilham os resultados financeiros da maior eficiência energética. Com o Proesco, o banco busca equacionar os problemas relativos às condições de financiamento, apontadas como uma das barreiras mais importantes para a realização de projetos de eficiência energética no Brasil.

O leque de opções para o fomento de projetos de relevância ambiental é bem amplo. Mesmo os grandes projetos de infra-estrutura, como os de transporte e energia, que despertam grandes discussões na sociedade, podem se beneficiar de uma visão pró-ativa, que respeite os condicionantes socioambientais. O fomento da inovação e do desenvolvimento de novos produtos e serviços do setor de biotecnologia preferencialmente deveria mirar a agregação de valor em cada uma das possíveis cadeias produtivas. Em relação ao ecoturismo, o Brasil, apesar do evidente potencial, ainda ressente de políticas e incentivos a seu crescimento em bases sustentáveis. Diante do agravamento das mudanças climáticas, o mercado de créditos de carbono aparece no horizonte como uma grande oportunidade de investimentos ambientalmente sustentáveis.

O bom uso das vantagens competitivas de cunho ambiental pode ser decisivo para o desenvolvimento brasileiro, tendo como vertente principal a vinculação das inovações tecnológicas e os benefícios ambientais. O BNDES estará atento e disponível para oferecer os recursos adequados para a promoção desse salto decisivo para o país. 

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