Produção mais Limpa, uma ferramenta para o desenvolvimento sustentável, com a conscientização e participação do setor produtivo

José Bassol

A previsível escassez dos recursos naturais não renováveis, decorrente do crescente aumento na sua demanda, bem como da degradação ambiental provocada pelas atividades humanas, há tempos tem evidenciada a necessidade de se estabelecer novas diretrizes ambientais para o desenvolvimento e a produção industrial, bem como de outros empreendimentos necessários ao desenvolvimento da sociedade. Também há que se consolidar, em todos os setores da sociedade, a premissa do desenvolvimento industrial fundamentado no chamado "desenvolvimento sustentável". Esse conceito, definido de forma simples como o atendimento das necessidades da geração presente, garantindo os recursos necessários às atividades das gerações futuras permitindo-lhes vida de qualidade, é muito difundido mas, na prática, pouco se tem realizado. A maioria dos empreendimentos, no seu processo de desenvolvimento e crescimento, tem o cuidado de atender às exigências legais, com a implantação de medidas exigidas pelos órgãos públicos de controle ambiental. Dificilmente se nota um cuidado a mais, um detalhe extra que mostre efetivamente a implementação de medidas que visam a manter os recursos naturais, que promovam sua recuperação.

Em outras palavras, não há uma real implementação de medidas que atendam de forma direta os preceitos do desenvolvimento sustentável, que poderiam ser traduzidas pela implementação da já também difundida Produção mais Limpa. Para maior reflexão dos leitores, vejamos o que diz a Unep (United Nations Environment Programme) sobre Produção mais Limpa:

A Produção mais Limpa (P+L) é a aplicação contínua de uma estratégia ambiental preventiva integrada, aplicada a processos, produtos e serviços, para aumentar a eficiência global e reduzir riscos para a saúde humana e o meio ambiente. A Produção mais Limpa pode ser aplicada a processos usados em qualquer indústria, a produtos em si e a vários serviços providos na sociedade.

Para processos produtivos, a P+L resulta em medidas de conservação de matérias-primas, água e energia; eliminação de substâncias tóxicas e matérias-primas perigosas; redução da quantidade e toxicidade de todas as emissões e resíduos na fonte geradora durante o processo produtivo, de modo isolado ou combinadas;

Para produtos, a P+L visa a reduzir os impactos ambientais e de saúde, além da segurança dos produtos Produção mais Limpa, uma ferramenta para o desenvolvimento sustentável, com a conscientização e participação do setor produtivo em todo o seu ciclo de vida, desde a extração de matériasprimas, manufatura e uso até a disposição final do produto;

Para serviços, a P+L implica em incorporar a preocupação ambiental no projeto e na realização dos serviços. As empresas que adotam essa postura pró-ativa entendem que um conceito moderno de poluição nada mais é do que a matéria-prima que passou pelo processo produtivo consumindo energia e mão-de-obra, não agregou valor como produto, devendo ser descartada de modo adequado, com custos de tratamento, transporte e disposição final. Essas empresas estão conscientes de que não há crescimento sem a devida proteção do meio ambiente.

A prática da P+L, inserida como um instrumento do desenvolvimento sustentável, oferece às empresas maior competitividade, devido à economia que se alcança, bem como a valorização da sua marca pela associação ao respeito pelo meio ambiente, bem comum de toda a humanidade. A Produção mais Limpa é uma das poucas ferramentas aplicáveis diretamente nas plantas produtivas, com retorno dos investimentos relativamente rápido. Ainda existem empresas que não estão conscientes disso e não enxergam os ganhos financeiros, decorrentes dos ganhos ambientais.

A adoção da P+L como uma política institucional das empresas, com tratamento efetivo da questão como um sistema de gestão, ao invés da adoção de ações pontuais, pode trazer resultados ambientais satisfatórios de forma contínua e perene. Esses resultados devem ser avaliados periodicamente por intermédio de indicadores como a produtividade, redução do consumo de matérias-primas e recursos naturais, diminuição do passivo ambiental, redução da carga de resíduos gerados nas plantas produtivas e redução/eliminação da utilização de substâncias tóxicas. Atingindo-se resultados positivos na análise dos indicadores citados, implicará na redução de riscos para a saúde ambiental e humana, além de trazer benefícios econômicos para o empreendedor, contribuindo sobremaneira para a imagem empresarial, com melhoria na sua competitividade.

Com intuito de incentivar as ações de P+L, a Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo) possui um setor específico que desenvolve estudos e incentiva a implementação de medidas que atinjam esses objetivos. Também atua constantemente junto à iniciativa privada na difusão desses conceitos para o desenvolvimento de ações e incentivo às iniciativas de implementação da produção mais limpa. Até o final de 2005, as ações estavam embasadas na publicação de guias de P+L para setores específicos, com ou sem a participação da iniciativa privada, publicações de casos de sucesso, além de cursos e palestras.

A partir de 2006, o Setor de Tecnologias de Produção mais Limpa da Cetesb, além de manter as atividades descritas, também iniciou um trabalho interno, no sentido de atender às necessidades emergentes da renovação das licenças ambientais. Concomitantemente a isso, também tem buscado incrementar as parcerias com as entidades representativas dos setores produtivos, de forma a garantir que as ações de P+L propostas tenham a co-participação dos empreendedores e sejam ferramentas de auxílio mais consistentes, não somente para a Cetesb, mas também para todos os segmentos industriais.

Não se pode perder de vista que as ações de P+L se referem a incursões aos processos produtivos com visão crítica, de modo a se identificar oportunidades de melhoria do processo, ou ainda, de conhecimento técnico no sentido de promover alterações de formulações de produtos com adoção/modificação de matérias-primas e geração de resíduos menos tóxicos. As empresas devem estar preparadas para tomar essas atitudes, a exemplo daquelas que ousaram e hoje colhem os frutos de ter modificado seus processos produtivos, tendo como objetivo a preservação e melhoria do meio ambiente. As parcerias para a busca da melhoria ambiental e a atuação do órgão ambiental, juntamente com o setor produtivo, aliando-se seus conhecimentos técnicos, estabelecem um auxílio mútuo que leva a atingir esses objetivos.

Nessa busca pela parceria, também se inserem projetos com parceiros internacionais. A Cetesb, com o auxílio da Trade Development Agency (TDA) americana, está implementando o projeto Programa de Redução do Uso de Substâncias Tóxicas na Indústria Paulista, com previsão de conclusão para meados de 2007, no qual se pretende uma participação bastante ativa das indústrias; participação que é considerada primordial para o seu sucesso.

A parceria entre os órgãos públicos e o setor produtivo garante um fórum de decisão das melhores ações a serem adotadas em P+L, permitindo uma atuação responsável das indústrias e facilitando as ações dos órgãos competentes no processo de fiscalização e licenciamento ambiental, todas elas necessárias para se atingir o desenvolvimento sustentável, desejo de toda a sociedade.

Lineu José Bassoi é diretor de Engenharia, Tecnologia e Qualidade Ambiental da Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo)  

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