Conferência de Montreal: Sucesso ou fracasso?

José Goldemberg - Secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo

A Conferência de Montreal sobre mudanças climáticas foi na realidade a superposição de duas conferências: a COP 11, décima primeira reunião dos 189 países signatários da Conferência do Clima de 1992 (inclusive os Estados Unidos), e a MOP, primeira reunião dos países que ratificaram o Protocolo de Kioto, adotado em 1977 (mas que entrou em vigor apenas no ano passado). Este protocolo estabelece metas e calendários quantitativos para a redução das emissões que provocam mudanças climáticas para os países industrializados, e do qual os Estados Unidos não fazem parte.

A agenda das duas conferências era bastante clara: em primeiro lugar, estender o Protocolo de Kioto além de 2012, e, em segundo lugar, atrair os Estados Unidos para ele ou para outro protocolo que ampliasse o número de países que aceitem compromissos firmes de redução das emissões, incluindo, se possível, os países em desenvolvimento, que não estão sujeitos a qualquer redução.

O primeiro item da agenda foi atingido parcialmente. Os países membros do Protocolo de Kioto concordaram em iniciar um processo para "considerar compromissos adicionais dos países industrializados além de 2012". No entanto, não foi fixado um calendário para as decisões, mascarado pela linguagem de que o processo deve ser concluído "o mais cedo possível e em tempo para assegurar que não haja uma descontinuidade entre o atual período (que se encerra em 2012) e o próximo (após 2012)".

O setor privado, que faz investimentos em transações de emissões através de vários mecanismos - entre os quais o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) -, provavelmente não se sentirá muito seguro em continuar a fazê-los diante da falta de definição das regras a vigorar após 2012.

O segundo item, que seria o de levar os Estados Unidos a aceitar metas de redução de emissões, resultou no compromisso de iniciar um "diálogo para a troca de experiências e análise de estratégias para cooperação em longo prazo". Este fraco compromisso foi ainda mais enfraquecido pela decisão de que este diálogo "não implicará em qualquer negociação que leve a novos compromissos". O fato destas decisões terem sido saudadas por alguns como um grande sucesso - inclusive ambientalistas - mostra o quão desesperada é a situação: na ausência de qualquer medida prática e objetiva, "concordar em dialogar" (por quanto tempo?) é o máximo que se conseguiu em Montreal.

Os países em desenvolvimento, que estão se tornando grandes emissores (como a China, Índia e até o Brasil), não aceitaram nenhum compromisso de redução de emissões, o que não é bom para a atmosfera, já que só a China emite 17% das emissões mundiais e provavelmente vai superar os Estados Unidos dentro de dez a 15 anos. No fundo, a posição da China, de se manter fora do Protocolo de Kioto, tem o resultado perverso de justificar que outros - que deveriam estar dentro dele, como os Estados Unidos - também se mantenham fora dele.

Ações voluntárias de países em desenvolvimento (como "desmatamento evitado" ou projetos setoriais de grande porte ou outras) serão também objeto do "diálogo" que tentará identificar meios de apoiá-las.

O fato do Brasil ter se decidido a discutir o problema do desmatamento é um grande passo à frente pelo qual a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, tem crédito. No passado, era impensável que os negociadores brasileiros se engajassem em qualquer discussão envolvendo a Amazônia, considerada "tabu" uma vez que era associada à possível perda de soberania sobre aquela área.

De concreto, o que resultou da Conferência de Montreal nesta área foi a de iniciar uma discussão a respeito de realizar um workshop antes de novembro de 2006 e apreciar o assunto nas conferencias dos países membros em dezembro de 2007.

Em 1991, os países industrializados chegaram até a oferecer US$ 1,5 bilhão para ações que protegessem a Amazônia. Esta oferta foi recusada depois de infindáveis Conferência de Montreal: sucesso ou fracasso? Conferência de Montreal: sucesso ou fracasso? Alguns progressos pontuais foram feitos em Montreal para se conter as fontes poluentes que provocam o aquecimento global, mas a conferência não traçou um plano concreto para salvar o planeta 5 negociações e se converteu num programa de US$ 250 milhões a serem aplicados em cinco anos, que se estenderam por dez anos sem grandes resultados.

O único mecanismo financeiro que existe no momento para apoiar essas ações é o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, no qual empresas nos países industrializados investem em projetos que geram créditos que eles podem usar nos seus respectivos países para cumprir as metas do Protocolo de Kioto. Manter as compensações por "ações voluntárias" fora desse mecanismo e esperar a criação de novos mecanismos nos parece ser uma oportunidade perdida.

Muito mais eficaz teria sido adotar as sugestões de muitos que reconheciam que "medidas voluntárias" deveriam ser enquadradas no próprio Mecanismo de Desenvolvimento Limpo. O argumento usado é de que fazer isto permitiria aos países industrializados resolver seus problemas, isto é, compromissos no Protocolo de Kioto sem fazer esforços dentro de seus países para reduzir suas emissões, mas comprando créditos nos países em desenvolvimento, o que é visto como eticamente incorreto por várias organizações não-governamentais. Contudo, se isso não for feito, será perdida uma oportunidade de reduzir as emissões de carbono e de outros gases do efeito estufa na atmosfera.

Afora as decisões sobre esses grandes temas, cujo resultado é, no mínimo, duvidoso, foram tomadas algumas medidas concretas para tornar mais eficiente o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, que se tornou muito burocrático e voltado apenas para pequenos projetos pontuais. Se implementadas as decisões tomadas em Montreal, elas abrirão caminho para projetos maiores e até para projetos setoriais. Contudo, a linguagem dessas decisões é tão obscura que exigirá um amplo trabalho para torná-las operacionais.

Em conclusão, o que se pode dizer é que alguns progressos foram feitos em Montreal, evitando-se um colapso completo das negociações sobre o clima, mas a conferência não traçou um plano concreto para salvá-lo. Para os que, em desespero, estavam tentando evitar o colapso, a conferência foi um sucesso. Para os mais preocupados em combater de maneira eficiente o efeito estufa e esperavam muito mais, os resultados foram tímidos e insuficientes. Para eles, a Conferência de Montreal foi um fracasso.

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