| Eliane Pinheiro Belfort Mattos
Diretora Titular do comitê de Responsabilidade Social da Fiesp e membro dos conselhos de Responsabilidade Social da Fiesp e da CNI (Confederação Nacional da Indústria)
A responsabilidade de uma entidade como a Fiesp, que
tem como missão precípua a defesa e o fortalecimento da
indústria, induz seus dirigentes a se afastarem de modismos
e a utilizar instrumentos clássicos para desenhar os
caminhos que serão apontados.
A legitimidade alcançada por uma eleição disputada com
o envolvimento da base industrial aumenta o comprometimento
e a responsabilidade em demandas advindas de
todos segmentos e portes de indústrias, além do esforço
que tem que ser empreendido junto ao governo para minimizar
as dificuldades impostas pelo arrocho de uma política
monetária que empobrece o empresariado nacional e impede
que o Estado invista em longo prazo.
A classe produtiva se dá conta que a política econômica
deste governo e do anterior vem produzindo superávits
primários que são solapados por juros estratosféricos, resultando
num fosso cada vez maior entre uma minoria cada
vez mais rica e uma maioria cada vez mais pobre.
Aos pobres, o governo distribui programas sociais, da
mesma forma que distribui juros aos ricos. Essa política,
dentro do contexto mundial, aprofunda no país a crise da
produção, da criação, da riqueza e da falta de empregos.
O ciclo econômico que está se iniciando, em que a produção
asiática, liderada pela China, motor de crescimento
mundial, vem demandando um fluxo de matérias-primas de
países como o Brasil, inflaciona o mercado por commodities
primárias, como minérios, petróleos e produtos agrícolas.
Sem política industrial há décadas, o país se deixa levar
pelo boom do momento. Os investimentos estão todos voltados
para os setores primários, papel, celulose, aço, mineração
pecuária e agronegócios, e tenta-se também investir
na infra-estrutura para atender à demanda asiática.
Esse modelo de crescimento isolado não é sustentável.
Primeiro, porque não gera empregos suficientes para fazer
frente às necessidades do país. Segundo, porque num futuro
muito próximo não teremos como barrar a entrada dos
produtos chineses, produzidos com mão-de-obra semiescrava
e nossa matéria-prima, pela indústria de transformação
asiática, que vem se fortalecendo.
Nesse ambiente econômico, por um lado a Fiesp trabalha
para que o governo aproveite esse momento favorável
a nossa moeda propiciada pelas commodities primárias,
dotando o setor produtivo de instrumentos que permitam a
indústria elevar a competitividade para fazer frente ao mercado
internacional. De outro, foi desenhada agenda de
Responsabilidade Empresarial da Fiesp, antevendo a dificuldade
em manter a competitividade dos setores de transformação
e de substituição de importação, os grandes empregadores
de mão-de-obra.
O Comitê de Responsabilidade Social da Fiesp (Cores),
respaldado pelo Conselho Social do Instituto Roberto Simonsen
(Consocial), visando a minimizar e antecipar-se
Responsabilidade Social co
ELIANE PINHEIRO
aos problemas que virão em curto prazo, pois não é possível
dissociar o tema Responsabilidade Social da economia e do
emprego, vem disseminando o conceito da Responsabilidade
Social como ferramenta de gestão, descolando o conceito
de Responsabilidade Social de ação social e filantropia.
Para manter a indústria de transformação em pé, é preciso
dotá-la também de mecanismos de competitividade,
que passam necessariamente por educar, treinar e melhorar
a qualidade de vida dos colaboradores e familiares dos
industriários.
Não se pode pensar em produzir com qualidade sem
colaborador que viva com qualidade, que entenda o conceito
da qualidade, que só é percebido quando essa permeia a
vida e é levada também para o ambiente de trabalho, para
a produção.
Não é possível esperar comprometimento, criatividade se
não houver saúde e tranqüilidade na fábrica e na família.
Numa economia em que os processos tecnológicos
sofrem avanços contínuos, as pessoas devem ser altamente
capacitadas e dispostas a aprender.
Para a Fiesp, a maior responsabilidade da indústria é ter
lucro, para continuar reinvestindo, preservando e ampliando
a oferta de empregos e mantendo a eqüidade social.
Assim as pequenas e médias indústrias, que representam
6% do universo industrial, antes de investir na comunidade
extra-fábrica, atendendo aos apelos dos governos,
organizações etc., devem olhar para dentro de seus muros
e analisar de que maneira as carências e necessidades
de seus colaboradores e familiares estão sendo atendidas.
E como essas carências afetam sua produtividade, qualidade,
competitividade e lucro.
Carece de coerência aportar recursos para a alfabetização
quando em seus próprios quadros existem analfabetos,
manter uma creche quando seus funcionários têm filhos em
situação de risco doméstico, aparecer na mídia colaborando
com hospital local quando os colaboradores sofrem de
males endêmicos.
Na indústria, como na família, pensamos ser necessário
atentar para as esferas de responsabilidade e de fôlego econômico.
Seria considerado irresponsável um chefe de família
que comprometesse os recursos
destinados à alimentação, saúde
e educação de seus filhos,
destinando-os a uma entidade assistencial.
Da mesma forma, uma
indústria pode e deve investir na
comunidade, mas desde que seja o
excedente.
A substituição do papel regulador
do Estado, fragilizado pela concentração
do capital e da renda advinda do modelo de
globalização, deve ser assumida pelas empresas dos setores
que fazem parte desse novo ciclo de desenvolvimento
e das que vêm se beneficiando do modelo econômico de
longa data, como os setores financeiro, tecnológico, de
telecomunicações e os conglomerados transnacionais,
que devem responder pela coesão social em parcerias
com as entidades sem fins lucrativos, como vem sendo
proposto mundialmente.
Muitas dessas empresas entendem esse papel e realizam
projetos sociais importantes nas comunidades em que
atuam, mas uma grande maioria ainda reluta em assumir
suas obrigações, e tentam universalizar o discurso do social
e dividir o ônus dos efeitos socialmente perversos da lógica
do mercado com as empresas que não participam do bônus
da concentração de riqueza, que o modelo a elas propicia.
As empresam que não atuam globalmente, que procuram
nichos e desenvolvem-se nas franjas do mercado e enfrentam
dificuldades para acompanhar as rápidas mudanças
tecnológicas e suportar a carga tributária, a escassez de
crédito e juros abusivos não podem tomar para si a tarefa de
minimizar as carências a que estão expostas grandes
parcelas da população. Essas empresas devem investir em
seu negócio, para tornarem-se competitivas nesse ambiente
que conspira para seu desaparecimento.
O Programa Sou Legal, que está sendo levado para 50
pólos econômicos do Estado de São Paulo, trabalha com
esta concepção: tornar o produto paulista competitivo, para
o fortalecimento da indústria, focando em uma campanha
permanente pelo cumprimento de suas obrigações em três
eixos principais: ambientais, legais e sociais.
Seminários que estão disseminando o conceito da Responsabilidade
Social pelo viés da qualidade de vida que
contempla a educação, saúde, esporte e lazer, como fator
do desenvolvimento humano que induz à criatividade, inovação,
produtividade e excelência, centram o diferencial competitivo
no colaborador e no apoio aos talentos individuais.
O programa oferece ferramentas de parceiros importantes
como a ABCâncer, ABNT, Instituto Akatu, Alfabetização Solidária,
Centro São Paulo Design, Instituto Ethos, ImageMágica,
Bolsa de Valores Sociais, Canal Futura, SebraeSP,
MidiAtiva, Instituto São Paulo Contra a Violência, UniEthos,
Centro de Voluntariado, Via de Acesso,
Escola do Futuro e ABQV (Associação
Brasileira de Qualidade
de Vida), entre outras, que colocaram
à disposição da indústria suas
expertises para desenvolver nas empresas
as capacidades humanas e
técnicas, capazes de promover uma
revolução silenciosa a favor do desenvolvimento
econômico.
Para apoiar e divulgar no mercado as práticas de responsabilidades
sociais e ambientalmente sustentáveis, uma
etiqueta eco-social estará à disposição da indústria, para
diferenciar e identificar o produto que, em todas as etapas de
produção, atestar sustentabilidade.
A iniciativa adianta-se para impedir que futuras barreiras
sociais, a exemplo das ambientais e fito-sanitárias existentes,
impeçam a participação do produto paulista no mercado
internacional.
Da mesma forma, agirá como defesa comercial contra a
invasão de produtos fabricados em países que não exigem
os pré-requisitos de sustentabilidade ambiental e social.
A indústria não pode responder plenamente às demandas
sociais que se avolumam, muito menos substituir o papel do
Estado, mas pode, a partir de suas unidades de produção,
lançar as bases do desenvolvimento, cumprindo a função de
amortecedor social, contribuindo para diminuir as desigualdades
e para construir uma sociedade mais equilibrada e justa.
É a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo
assumindo sua responsabilidade de indutora do desenvolvimento
industrial. |