| José Goldemberg
Secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo
No começo de dezembro se
reunirão na cidade de Montreal, no
Canadá, os representantes dos mais
de 180 países signatários da Convenção
do Clima assinada no Rio de
Janeiro em 1992. Esta é a 11ª Conferência
das Partes, em que os delegados
tentam, através de negociações
diplomáticas, definir o que fazer para
evitar as mudanças de clima que a
ação do homem está causando.
Em relação a grandes conferências
como essa, existem posições supostamente
"realistas", que acreditam que
os grandes problemas não se resolvem
em negociações mas no campo
de batalha. Stalin expressou este sentimento
com sua brutalidade usual, ao
perguntar durante a Segunda Guerra
Mundial (1939-1945) "quantas divisões
tem o papa". Já os "idealistas" acreditam
que grandes conferências como a
de Versalhes em 1919, após a Primeira
Guerra Mundial, ou a de Yalta em
1944 é que decidiram os rumos da história
no século 20 e não propriamente
o que ocorreu nos campos de batalha.
É por essa razão que é difícil prever
o que vai acontecer em Montreal: por
um lado estão ocorrendo em todo o
mundo batalhas localizadas entre os
que defendem ações mais enérgicas
para evitar mudanças climáticas; por
outro lado, os negociadores nas grandes
conferências não representam,
necessariamente, de maneira fiel o
resultado dessas batalhas, mas interesses
particulares ou até de governos
pouco esclarecidos sobre a verdadeira
natureza do problema.
O que ocorreu nos Estados Unidos
nos últimos dez anos dá um bom
exemplo dessas distorções. Em 1997,
quando Clinton era o presidente dos
Estados Unidos, foi assinado o Protocolo
de Kioto que deu "dentes" à Convenção
do Clima, adotando metas para
redução dos gases que provocam o
efeito estufa (e, conseqüentemente,
as mudanças climáticas) e um calendário
para que elas fossem cumpridas
(redução de 5,2% abaixo das
emissões de 1990 ate 2012). Já seu
sucessor, o presidente Bush, se opõe
frontalmente a cumprir os compromissos
assumidos por Clinton. Por outro
lado, o primeiro-ministro Blair, do Reino
Unido, aliado de Bush na Guerra do
Iraque, lidera uma grande campanha
para ampliar e dinamizar o Protocolo
de Kioto, cuja implementação já começou
a mostrar sinais de uma burocratização
excessiva que está afastando
o setor privado.
No que pode consistir essa ampliação?
Ela pode:
. estender os compromissos criados
pelo Protocolo de Kioto além de
2012;
. incluir os grandes países em
desenvolvimento entre aqueles que
aceitam limitar suas emissões, uma
vez que o Protocolo de Kioto não estabeleceu,
para eles, qualquer compromisso;
. estabelecer reduções ainda
maiores do que as estabelecidas em
1997 e que foram apenas um primeiro
passo, mas não suficiente, para afastar
o perigo das mudanças climáticas.
Esta é uma agenda ambiciosa para
a Conferência de Montreal, que dificilmente
será cumprida a julgar pelos
resultados das dez conferências que a
precederam.
Contudo, tal conferência não esgota
as possibilidades de ação nem
reflete com precisão o que está acontecendo
em muitos países desenvolvidos
e em desenvolvimento. A União
Européia já adotou o seu próprio Protocolo
de Kioto, que está em plena
implementação com mecanismos fortes,
como o de atribuir um alto valor
para cada tonelada emitida de carbono,
tão alto que encoraja os industriais
a melhorar as tecnologias em uso para
reduzi-las. Mesmo certos estados importantes
dos Estados Unidos, como
o da Califórnia, estão seguindo esse
caminho.
Além disso, mesmo sem qualquer
acordo internacional, várias tecnologias
de energias renováveis estão evoluindo
rapidamente e gerando bonsprodutos.
É o caso do álcool da cana de
açúcar, que substitui com eficiência e
bons preços a gasolina, combustível de
origem fóssil. Por ser renovável, esse
álcool praticamente não redunda em
emissões líquidas de carbono para a
atmosfera, ao contrário da gasolina.
Automóveis elétricos ou híbridos, que
consomem menos combustíveis fósseis
ou mesmo renováveis, constituem
outra opção em andamento. O aumento
da eficiência com que o carvão é
usado para gerar eletricidade em vários
países, especialmente na China
e na Índia, está também ocorrendo.
Contudo, talvez mais importante
que todas essas ações é o fato de que
alguns países como a Suíça já introduziram
uma taxa adicional sobre cada
tonelada de carbono emitida. O Japão
e a Holanda estão considerando essa
opção, através do preço com que eletricidade
é vendida. A recente proposta
do presidente Lula nas Nações Unidas
de cobrar dois dólares de cada
passageiro nos vôos internacionais
segue no mesmo sentido.
Quando se trata, porém, dos países
em desenvolvimento, tem algum
sentido argumentar que reduzir suas
emissões poderia prejudicar seu crescimento
econômico. No entanto há
formas de contornar esse problema,
tais como:
. promover o crescimento econômico
com novas tecnologias que poluem
menos (como está sendo feito no
Estado de São Paulo);
. utilizar mecanismos privilegiados
de financiamento nacionais e internacionais
para projetos que compensem
medidas setoriais tomadas
pelos países em desenvolvimento para
reduzir suas emissões (como, por
exemplo, os que impliquem em reduções
de desmatamento).
A redução do desmatamento, como
se sabe, é uma forma eficaz de reduzir
as emissões, e um esforço neste
sentido na Amazônia poderia facilitar
a captação de empréstimos que levassem
ao desenvolvimento sustentável
daquela região.
Em suma, não é só em conferências
internacionais que se traça o destino
das nações, mas em muitas outras
atividades e batalhas. Conferências
como a de Montreal podem ajudar,
mas não são o único instrumento para
fazer avançar a luta por um desenvolvimento
sustentável. |