| Luiz Cesar Stano
Coordenador do programa de desenvolvimento sustentável da Petrobras
O conceito de desenvolvimento
sustentável, ao propor que o crescimento
econômico, o progresso social e
a conservação do meio ambiente sejam
contemplados de forma simultânea
e harmônica e que se busque maximizar
a eco-eficiência de todas as atividades
humanas, vem sendo encarado
como uma possível resposta aos desafios
sociais e ambientais que vimos
enfrentando neste início de século.
Eco-eficiência é um conceito que
essencialmente procura relacionar os
resultados obtidos em uma determinada
atividade com os impactos produzidos
sobre o meio ambiente, em termos
de consumo de recursos naturais
ou de poluição. A eco-eficiência pode
ser expressa de muitas formas, como,
por exemplo, relacionando-se a quantidade
de um determinado produto com
o volume de água consumido em sua
fabricação ou o resultado de um serviço
prestado com a emissão de gases
de efeito estufa associada a sua
execução.
O desenvolvimento sustentável,
ao privilegiar a eco-eficiência, busca
assegurar que os bens e serviços indispensáveisà melhoria da qualidade
de vida das pessoas sejam produzidos
de forma economicamente viável,
sem prejudicar o meio ambiente
ou comprometer a disponibilidade dos
recursos naturais para as próximas
gerações.
É fundamental considerar, no entanto,
que a vida dos produtos e serviços
de que a sociedade necessita é
composta de uma seqüência de etapas
e operações, cada uma delas em
geral capaz de provocar impactos ao
meio ambiente.
A vida de um produto industrial pode
incluir a extração e o beneficiamento
de matérias primas, o transporte desses
materiais, a fabricação do produto,
o transporte até o local onde será
utilizado, a utilização do produto e sua
disposição final, reutilização ou reciclagem,
ao fim da vida útil. Essa seqüência
de etapas consideradas em
conjunto constitui o Ciclo de Vida do
produto e permite que ele seja vislumbrado
do “berço ao túmulo”.
Em cada uma das etapas do ciclo
de vida de um produto pode haver consumo
de energia e de recursos naturais,
assim como ocorrer liberação de
emissões, efluentes e resíduos, provocando
impactos ambientais. A avaliação
completa e consistente da ecoeficiência
desse produto exige que
os impactos ambientais em todas
as etapas de seu ciclo de vida sejam
adequadamente considerados. A ferramenta
que permite o desenvolvimento
de forma sistemática desse tipo de
análise é a Avaliação do Ciclo de
Vida – ACV.
A ACV, por seu caráter abrangente
e integrador, vem encontrando inúmeras
aplicações, principalmente nas
economias mais desenvolvidas. As
empresas vêm utilizando a ferramenta
para reprojetar ou promover melhorias
no desempenho ambiental de processos,
produtos e serviços, atender
a demandas ou melhorar a comunicação
com o mercado e orientar investimentos
e estratégias. Os governos
buscam obter, através da aplicação
da ACV, subsídios para o estabelecimento
de políticas voltadas para
a gestão de produtos, de resíduos ou
para a reciclagem, incluindo a criação
de subsídios ou eco-impostos; visam
também a obter orientações para o estabelecimento
de programas de rotulagem
ambiental ou de “compras verdes”
( green procurement). As ONGs e
outras organizações da sociedade utilizam
os resultados das Avaliações
para, por exemplo, orientar os consumidores
em suas decisões de compra
ou investimento.
O ciclo de vida de produtos e serviços
em geral envolve, em suas diversas
etapas, um grande número de interações
mais ou menos complexas
com o meio ambiente, na forma de consumo
de energia ou de recursos naturais
e de liberação de poluentes, através
de emissões, efluentes ou da geração
de resíduos. Para que a Avaliação
do Ciclo de Vida produza resultados
confiáveis, replicáveis e, acima de tudo,
comparáveis, é necessário que os impactos
ambientais associados às interações
mencionadas sejam avaliados
através de metodologias e procedimentos
sistemáticos e padronizados.
Por essa razão, a International Organization
for Standardization – ISO
desenvolveu uma família de normas
internacionais estabelecendo orientações
e requisitos para a realização
de avaliações do ciclo de vida. Disponibilizadas
como normas brasileiras
através da ABNT, as normas NBR ISO
14040, ABNT NBR ISO 14041, 14042
e 14043 padronizam e estabelecem
requisitos para todas as fases de elaboração
de uma ACV:
A avaliação completa e consistente da eco-eficiência de um produto exige que os impactos de vida sejam adequadamente consideradas
ambientais em todas as etapas de seu ciclo
A norma 14040 especifica a estrutura geral, princípios e requisitos básicos para conduzir e relatar estudos de avaliação do ciclo de vida; .
A norma 14041 especifica os requisitos e os procedimentos necessários para a elaboração do objetivo e do escopo de uma ACV e para a elaboração, interpretação e comunicação de um Inventário de Ciclo de Vida (ICV). A fase de inventário de uma ACV corresponde à coleta e tratamento dos dados e informações, qualitativos e quantitativos, sobre os fluxos de materiais e energia envolvidos nas diversas interações com o meio ambiente que ocorrem no ciclo de vida de um produto ou serviço;
. A norma 14042 descreve e fornece orientações para avaliação dos impactos ambientais associados aos diversos fluxos de materiais e de energia identificados e tratados na fase de inventário;
A norma 14043 estabelece requisitos
e recomendações para a interpretação
de uma ACV, envolvendo aspectos
como análise dos resultados
obtidos, explicitação de conclusões e
recomendações e comunicação desses
resultados de forma adequada às
partes interessadas na Avaliação. Em função da complexidade dos
processos envolvidos no ciclo de vida
de muitos produtos e serviços e da necessidade
de se assegurar que os resultados
de uma ACV sejam confiáveis
e comparáveis, os requisitos das normas
mencionadas são rigorosos, principalmente
quando os resultados da
Avaliação destinam-se à divulgação
pública ou à utilização como base para
comparação, aberta ao público, do desempenho
ambiental de produtos ou
serviços com funções análogas.
Por outro lado, o interessado na
realização de uma ACV precisa ter
acesso a informações sobre impactos
ambientais em etapas do ciclo de
vida que não estão sobre o seu controle.
O fabricante que deseja avaliar o
ciclo de vida de um determinado produto
precisa, por exemplo, obter dados e
informações sobre impactos na etapa
de produção das matérias primas ou
energia utilizadas, processos normalmente
conduzidos por fornecedores
externos.
Esses dois aspectos se constituem
nas causas dos dois maiores problemas
que os países em desenvolvimento
vêm enfrentando para o incremento
da utilização da ferramenta: falta de
pessoal adequadamente capacitado
e disponibilidade de bancos de dados
contendo informações sobre a ACV
de insumos industriais básicos como
energia, aço, cimento, combustíveis
etc.
No Brasil, diversas iniciativas estão
sendo implementadas com o objetivo
de superar essas dificuldades:
. O Ministério da Ciência e Tecnologia,
através da Secretaria de Políti-
Divulgação
ca Tecnológica Empresarial, está estruturando
um programa para viabilizar
a criação de um banco de dados
público contendo os resultados da
ACV dos insumos industriais básicos
e, ao mesmo tempo, promover a capacitação
de uma massa crítica de
profissionais;
. Um conjunto de profissionais
atuantes na área fundou a Associação
Brasileira de Ciclo de Vida - ABCV,
entidade sem fins lucrativos que visa
a promover atividades de estímulo ao
ensino, à pesquisa e ao desenvolvimento
da Avaliação do Ciclo de Vida e
ao intercâmbio de informações relacionadas
ao tema;
. O Comitê Brasileiro 38 - CB 38,
da ABNT, além de ser o responsável
pela elaboração das normas brasileiras
de gestão ambiental correspondentes
à versão das respectivas normas
ISO, está também programando
a realização de eventos de divulgação
da ACV no país.
A importância de se estimular a
aplicação no Brasil dessa ferramenta
deriva não somente da possibilidade
de se obter ganhos ambientais e econômicos
através da melhoria da ecoeficiência
de produtos e serviços. Está
também relacionada à necessidade
de se assegurar a competitividade de
nossas exportações face a eventuais
barreiras que poderão ser impostas
principalmente pelos países europeus,
através da exigência de rotulagem
ambiental dos produtos brasileiros com
base na avaliação do seu ciclo de vida.
Esse tipo de rotulagem ambiental é
inclusive objeto de norma internacional
que já está em elaboração na própria
ISO e que poderá representar um
poderoso incentivo à disseminação do
uso da Avaliação do Ciclo de Vida em
nível mundial.
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