As Realizações da Cúpula Mundial
sobre Desenvolvimento Sustentável

Klaus Töpfer - Diretor-executivo do PNUMA

Nas últimas semanas, tive a chance de avaliar o resultado da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (realizada em Johannesburgo, na África do Sul, no final de agosto e início de setembro).
Enquanto este enorme encontro falhou em alcançar tudo aquilo que poderíamos desejar, numa análise final, foi dado um passo adiante na luta contra a pobreza e na meta para se alcançar um mundo mais limpo, saudável e justo.

Em vários momentos durante as negociações em Johannesburgo, nós enfrentamos a perspectiva de se obter algo muito mais fraco para o meio ambiente e, consequentemente, para o desenvolvimento sustentável.

Assim, estou satisfeito por se ter chegado a um movimento na direção certa em todas as cinco áreas chaves, que são Água, Energia, Saúde, Agricultura e Biodiversidade, identificadas pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan, durante os preparativos para a cúpula.

Existe alguma decepção por nações não terem concordado em estabelecer prazos e alvos globais para se impulsionar o nível do uso de energia renovável.

Não obstante, foi acordado que há uma necessidade por objetivos regionais e nacionais para as energias solar e eólica, e outras de produção de energia limpa.

Nós também obtivemos um compromisso para se diminuir à metade o número das pessoas sem acesso a serviços de saneamento até 2015. Este é um item importante não só para a saúde humana, mas também para o meio ambiente.

O PNUMA não ficou inativo durante as últimas semanas, tentando levar essa questão adiante. Nosso Programa Global de Ação para a Proteção do Ambiente Marinho de Atividades Baseadas em Terra (GPA, em inglês), localizado em Haia, na Holanda, acaba de emitir relatório que realça as áreas do mundo com as mais altas descargas litorâneas de esgoto in natura ou com tratamento inadequado. Isso nos permitirá, com outros sócios-chave, identificar regiões e áreas prioritárias para ação. Onde, se eu puder dizer de maneira simples, nós podemos conseguir o maior benefício para os recursos empregados.

Como uma forma de concentrar esforços, estamos propondo a idéia de Metas de Emissões de Esgoto ou WETs (sigla em inglês), imitando o que já foi estabelecido em várias partes do mundo para o controle da poluição do ar.

Outros sucessos da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável foram obtidos com importantes novos acordos sobre substâncias químicas.

Governos aceitaram a necessidade para uma nova – e internacional – abordagem para a administração das substâncias químicas e a harmonização de etiquetagem e de classificação dos produtos químicos que estarão operacionais por volta de 2008.

Como resultado da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, governos também se propõem, por volta de 2020, a produzir e usar substâncias químicas de tal maneira que não afetem adversamente a saúde humana. Esses acordos deveriam beneficiar todas as pessoas e especialmente aquelas em países em desenvolvimento e em regiões como a do Ártico, onde a poluição química é uma real ameaça à saúde humana e da vida selvagem.

Eu também dou boas-vindas ao endosso de líderes mundiais ao NEPAD (sigla em inglês), a Iniciativa para o Desenvolvimento Sustentável da África, e ao seu apoio para recuperar a agricultura e a pesca e para implementar as estratégicas de segurança alimentar no continente africano por volta de 2005.

No campo de biodiversidade, foi também bem-vindo o compromisso para se reverter a tendência de perdas por volta de 2010, assim como a decisão para terminar com práticas de pesca predatória e estabelecer áreas de proteção marinha e redes de comunicação por volta de 2012.

Uma decisão importante foi o apoio aos Acordos Ambientais Multilaterais e a reafirmação de que eles têm paridade com o sistema de comércio multilateral.

Também houve compromisso com um plano de ação para nações de pequenas ilhas, em que governos concordaram em reduzir e em prevenir desperdício e poluição empreendendo, antes de 2004, iniciativas destinadas à implantação do Plano de Ação Global para a Proteção do Ambiente Marinho de Atividades Baseadas em Terra.

Logo antes do encontro de Johannesburgo, nós organizamos uma reunião com mais de cem juizes seniores, incluindo magistrados do Superior e Supremo Tribunais.

A área da legislação ambiental tem sido, em muitas maneiras, a relação menos cuidada no esforço mundial para se chegar a um mundo mais limpo, mais saudável e, no final das contas, mais justo. Temos mais de 500 acordos internacionais e regionais, tratados e transações que cobrem da proteção da camada de ozônio à conservação dos oceanos e mares. Quase todas – se não todas nações – têm também leis ambientais nacionais. Mas a menos que os países estejam compromissadas com elas, a menos que sejam executadas, essas leis serão pouco mais do que símbolos, marcas, tigres de papel.

Este é um assunto que afeta bilhões de pessoas que vêm efetivamente tendo seus direitos negados, e não se trata apenas de uma preocupação nacional, mas regional e global. Estamos crescentemente alertas de que o que acontece em uma parte do mundo pode afetar outra parte do globo – sejam poluentes tóxicos da Ásia, Europa e América do Norte contaminando o Ártico ou os gases que provocam o efeito estufa das regiões industrializadas provocando secas ou o derretimento de geleiras nas menos industrializadas.

Tenho satisfação em dizer que um plano de ação para fortalecer o desenvolvimento, uso e execução de leis relacionadas ao meio ambiente foi adotado e apresentado na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável. Chamado de Princípios de Johannesburgo, esse plano de ação inclui o financiamento para a capacitação, treinamento e a educação de peritos legais, em particular no mundo em desenvolvimento.

Também fazem parte desse amplo plano de ação o compartilhamento do conhecimento adquirido em casos marcantes relacionados ao meio ambiente e o impulso à conscientização pública e ao acesso aos tribunais.

Outro resultado bastante positivo foi a nova parceria entre governos, sociedade civil, indústria e a Organização das Nações Unidas (ONU) em áreas como de responsabilidade corporativa e normas ambientais.

Isto deve ser comemorado. Foi acordado o desenvolvimento de planejamento de dez anos com programas em apoio a padrões de produção e consumo sustentáveis, baseados em iniciativas com base científica e em análises de ciclo de vida.

Também foi aceita uma iniciativa para encorajar a indústria a melhorar seu desempenho social e ambiental, levando em conta as normas da Organização Internacional de Normalização (ISO) e a Iniciativa de Relatório Global, na qual o PNUMA tem participado.

Ao final da cúpula, o PNUMA e a Unesco organizaram uma mesa-redonda de alto nível, que teve como anfitrião o presidente da França, Jacques Chirac, sobre diversidade cultural e biodiversidade para o desenvolvimento sustentável.

evamos a cabo estudos mostrando uma ligação entre diversidade cultural, diversidade lingüística e diversidade de plantas e vida animal. Neste mundo globalizado, encorajar a diversidade cultural é um tema tanto ambiental quanto social.

O plano de implementação que surge da Cúpula de Johannesburgo reconhece essas ligações ao admitir a necessidade de se considerar a diversidade ética e cultural na implementação da Agenda 21.

A Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável não foi a Rio 92. A situação política mundial, em 2002, é muito diferente daquela que marcou a Cúpula da Terra no Rio de Janeiro, em 1992.
Nós tivemos a queda do Muro Berlim e o fim da Guerra Fria. Hoje, temos um novo realismo como resultado da globalização. Assim, o plano de ação, acordado em Johannesburgo, foi menos visionário e mais trabalhador, como que refletindo talvez o sentimento entre muitas nações de que não querem mais prometer a Terra e falhar. De que eles preferiram dar um passo adiante do que correr muito rápido.

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