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Jerson Kelman
Diretor-Presidente da ANA - Agência Nacional de Águas
e Professor da COPPE-UFRJ
Nestes seus primeiros meses de existência, a ANA (Agência
Nacional de Águas), dedicou-se a atuar nas bacias hidrográficas
com problemas mais urgentes. Nossas primeiras ações
estiveram voltadas, prioritariamente, para duas questões:
a poluição e a seca.
Para
enfrentar a poluição, foi emblemática
a aprovação, pelo Conselho Nacional de Recursos
Hídricos - CNRH, da cobrança pelo uso do rio
Paraíba do Sul para afastamento e diluição
de poluentes. Trata-se de cobrar das empresas poluidoras uma
contribuição para a recuperação
da qualidade da água do rio. A arrecadação
será empregada, principalmente, para permitir a construção
e operação de estações de tratamento
de esgotos, segundo prioridades decididas pelo Comitê
para Integração da Bacia Hidrográfica
do Rio Paraíba do Sul - Ceivap. A decisão do
CNRH recebeu apoio dos setores usuários graças
à compreensão de que a recuperação
de nossos rios não é tarefa apenas do Governo.
A ANA teve participação na construção
do pacto "público-privado" apoiando as deliberações
do Ceivap.
Antecipando-se ao que deverá resultar da aplicação
da cobrança na despoluição do Paraíba
do Sul, a ANA tem viabilizado a construção de
estações de tratamento de esgoto desde o ano
passado. A abordagem do programa é inovadora: não
se financiam obras nem equipamentos mas paga-se pelo resultado
final que é o esgoto tratado. Em 2001, o programa recebeu
solicitação para continuação de
104 empreendimentos em 19 bacias hidrográficas. Em
função da disponibilidade orçamentária,
foram contratados 17 empreendimentos que vão reduzir
81 mil Kg de carga orgânica (DBO) por dia. Todo o recurso
sob responsabilidade da ANA, no valor de 52 milhões,
integralmente empenhado e repassado ao agente financeiro do
programa, a Caixa Econômica Federal, para compor o Fundo
Nacional de Despoluição de Bacias Hidrográficas.
Os recursos serão liberados na medida em que cada empreendimento
estiver funcionando, conforme estabelecido no contrato.
Por
que a ANA decidiu iniciar um programa de despoluição
tendo como foco as estações de tratamento de
esgoto? Porque o tratamento de esgotos é ainda um desafio
de grandes dimensões no Brasil, uma vez que apenas
cerca de 20% do esgoto urbano passa por alguma estação
de tratamento para a remoção de poluentes, antes
do despejo final em algum rio ou no mar. O resto do esgoto
coletado é conduzido por tubulações para
despejo in natura, transformando os rios em focos de disseminação
de doenças. Nas regiões mais pobres não
existem as tubulações e o esgoto sai da moradia
diretamente para a chamada "vala negra", o que aumenta
enormemente o risco de propagação das doenças
infecto-contagiosas, vitimando em particular as crianças.
Em outras regiões, dependendo da permeabilidade do
terreno, adotam-se fossas sépticas. Trata-se de razoável
solução para o destino final do esgoto, caso
as fossas sejam bem operadas. Só que freqüentemente
as fossas são mal operadas, resultando na contaminação
de lençóis freáticos e, consequentemente,
da água que vier a ser retirada de poços.
A experiência internacional mostra que os melhores
serviços de saneamento são aqueles em que os
custos de investimento, operação e manutenção
das instalações de abastecimento de água
e de coleta de esgoto são integralmente cobertos pelo
consumidor, através do pagamento de tarifas. Em direção
contrária, quando se adota tarifas excessivamente baixas,
alguém acaba "pagando o pato". Este alguém
pode ser o contribuinte, que paga impostos para subsidiar
prestadoras ineficazes, ou o cidadão que adoece, devido
à inexistência ou precariedade do serviço.
Entretanto, existem duas exceções em que se
admite que o Governo subsidie parcela do custo: para ajudar
o cidadão que não tem renda para pagar a tarifa
e para cobrir parte do custo de investimento das estações
de tratamento de esgoto.
A
primeira exceção é óbvia e não
carece de maiores explicações. O único
interesse, neste tema, seria discutir a maneira de se prestar
a assistência. No Chile, por exemplo, a ajuda governamental
se concretiza em bairros notoriamente carentes, através
da entrega de "cupons de água" às
famílias, que os utilizam no pagamento das contas de
água. Trata-se de uma das múltiplas formas de
se garantir uma renda mínima aos pobres. Já
a segunda exceção é um pouco mais complexa.
Afinal, por que seria razoável subsidiar parcialmente
o custo de instalação uma estação
de tratamento do esgoto, cuja "matéria prima"
é produzida indistintamente por pobres e ricos? A razão
é que neste caso o beneficiário do tratamento
é a comunidade, ao contrário do abastecimento
de água e da coleta de esgoto, em que o beneficiário
é o indivíduo.
No ano passado, o presidente Fernando Henrique Cardoso mandou
ao Congresso Nacional um importante projeto de lei (PL 4147)
contendo as diretrizes básicas sobre o setor de saneamento.
O PL, estabelece direitos e obrigações dos titulares
dos serviços - governos municipais ou estaduais que
o podem prestar diretamente ou através da contratação
de uma concessionária, dos usuários dos serviços,
e das concessionárias (empresas públicas ou
privadas). Um dos principais méritos do projeto é
criar regras precisas e estáveis para que os prestadores
do serviço, tanto empresas públicas quanto privadas,
possam fazer os investimentos necessários para o atendimento
da população.
Para enfrentar a seca, a ANA buscou maneiras, também
inovadoras, para proporcionar segurança aos empreendimentos
que usam água como insumo de processo produtivo. Por
exemplo, em meados do ano passado, percebemos que o volume
de água armazenada na bacia do rio Jaguaribe seria
suficiente apenas para atender à metade da demanda
anual do setor agrícola. Se nada fosse feito, a pouca
água disponível seria quase inteiramente apropriada
pelos plantadores de arroz, localizados perto da barragem,
causando grandes prejuízos aos plantadores de frutas,
localizados rio abaixo. Esta seria uma alocação
ruim da água porque fruticultura gera mais renda e
mais emprego. Fizemos uma parceria com o Governo do Ceará
no sentido de implementar um programa para permitir a conversão
da lavoura de arroz por outras mais produtivas e mais econômicas
em termos de consumo de água. Os rizicultores receberam
treinamento e acesso a crédito. Em contrapartida, os
fruticultores concordaram em pagar pela garantia de acesso
a água. Este projeto nos coloca em boa posição,
quando se compara com outros países, que apesar de
terem iniciado a gestão de recursos hídricos
há várias décadas, só recentemente
conseguiram convencer os agricultores das vantagens da cobrança
pelo uso da água, como mecanismo indutor de confiabilidade
de suprimento.
A
ANA também tem apoiado a construção de
cisternas rurais, em parceria com 600 organização
não governamentais e com a Unicef. Trata-se de garantir
o direito fundamental de qualquer cidadão ter acesso
a água para beber. O programa dá a devida atenção
ao treinamento das famílias no uso das cisternas.
O sucesso destes passos iniciais nos anima a prosseguir com
a abordagem adotada desde o início: as decisões
sobre o uso de recursos hídricos são tomadas
o mais próximo possível de onde ocorrem os problemas,
com a participação de todos os atores relevantes.
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