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Haroldo Mattos de Lemos
Precisamos reconhecer que os produtos químicos melhoraram
profundamente nossa qualidade de vida, mas também provocaram
efeitos colaterais (não intencionais), como já
afirmava Elizabeth Dowdeswell, Diretora Executiva do PNUMA,
entre 1993 e 1997.
Em regiões frias próximas aos pólos,
encontramos atualmente, concentrações surpreendentemente
altas de produtos químicos tóxicos e persistentes
(com velocidade de biodegradação muito baixa).
Alguns exemplos são os PCBs (bifenilas policloradas,
usadas em transformadores elétricos, equipamentos de
resfriamento e materiais de isolamento) e pesticidas como
DDT, Lindano e Toxafeno, que nunca foram utilizados naquelas
regiões.
Para explicar este fenômeno, que está transformando
as regiões polares em lixeiras químicas, os
cientistas descobriram um processo que estão chamando
de "destilação global" .
Alguns poluentes orgânicos persistentes - POPs, como
os mencionados acima, são usados ou aplicados em regiões
tropicais e temperadas. Por serem ligeiramente voláteis
ou semi-voláteis (evaporarem lentamente) são
transportados pelos ventos na forma gasosa até encontrarem
temperaturas mais baixas. Quando isto ocorre são condensados
diretamente na superfície do solo ou nas partículas
presentes em aerossóis, que serão depositadas
posteriormente através da neve ou chuvas.
Na realidade, também ocorre evaporação
nas regiões mais frias, e o transporte pelas correntes
de ar dos pólos para as regiões tropicais equivale
à corrente inversa. Mas como a condensação
e deposição são favorecidas pelas baixas
temperaturas, o balanço final desse processo é
o transporte mais intenso dessas substâncias químicas
na direção das regiões polares. Como
agravante, tem-se que, quanto mais baixa a temperatura, mais
baixa a velocidade de biodegradação dos POPs,
o que favorece o aumento da concentração desses
poluentes nas regiões mais frias. Atualmente, as grandes
concentrações de pesticidas (a-HCH e toxafeno)
encontradas nas águas do mar estão no Oceano
Ártico1.
O transporte dos POPs para as regiões polares pode
se dar em uma ou em várias etapas (efeito "gafanhoto"),
e pode levar algumas décadas, até que o produto
químico seja degradado ou retido de forma permanente.
Assim como nas regiões onde os POPs foram usados e
aplicados, nas regiões mais frias eles entram nas cadeias
alimentares e se acumulam nos peixes, aves, mamíferos
marinhos e no homem.
Estamos, portanto, frente a um novo problema ambiental em
escala global, pois ele afeta mesmo aqueles que não
contribuíram (ou contribuíram muito pouco) para
o surgimento do problema. Um exemplo são os esquimós:
as mulheres Inuit na Groenlândia e no Ártico
Canadense apresentam hoje uma concentração de
PCB no seu leite, muitas vezes maior do que as mulheres que
vivem nos países industrializados1.
Outro problema descoberto recentemente por cientistas europeus,
mostra que alguns produtos químicos, mesmo quando presentes
em concentrações extremamente baixas no organismo,
reproduzem os efeitos de certos hormônios (os estrogênios
p.e.) ou bloqueiam a produção destes. Vale lembrar
que os hormônios desempenham papel fundamental nos animais,
como mensageiros químicos circulando no sangue e regulando
muitas funções do corpo, como o crescimento,
o metabolismo e a reprodução .
Alguns produtos químicos podem imitar, destruir, desorganizar
ou interferir na rede hormonal dos seres humanos e dos animais
(sistema endócrino). Os "destruidores endócrinos"
(endocrine disrupters), como estão sendo chamados,
incluem muitos POPs, pesticidas e resíduos industriais.
A presença conjunta de algumas dessas substâncias,
mesmo em doses muito pequenas, potencializa, ao que parece,
seus efeitos e dificulta ainda mais o seu estudo, pois a toxicologia
de muitos desses produtos químicos ainda não
está completa.
Quando Rachel Carson publicou seu livro "Primavera Silenciosa",
em 1962, alertava o mundo para os efeitos da utilização
do DDT na agricultura. Ela descreveu o processo pelo qual
o DDT bloqueava a formação do tecido calcário
dos ovos das aves, mas ainda não o classificava como
destruidor endócrino.
Os destruidores endócrinos estão sendo responsabilizados
por uma série de efeitos tóxicos, como o aumento
da incidência de câncer de mama, da próstata
e dos testículos, danos ao sistema nervoso, doenças
do sistema imunológico e várias anomalias da
reprodução, como a redução de
cerca de 50% na contagem do esperma, infertilidade masculina,
retração de testículos e até hermafroditismo.
Pode-se medir atualmente, pelo menos 500 produtos químicos
que carregamos no nosso organismo, e que antes de 1920, jamais
estiveram presentes no corpo humano .
Existem fortes indícios de que as mães transmitem
alguns deste produtos químicos para os seus bebês
durante os períodos de gestação e amamentação.
E estas substâncias são capazes de interferir
nas mensagens químicas (hormônios) de desenvolvimento
dos bebês.
Algumas substâncias, como o DDT e o mercúrio,
podem permanecer várias décadas no organismo
dos homens e animais antes de serem eliminadas facilitando,
portanto, o acúmulo destas substâncias no organismo.
Somente nos Estados Unidos, mais de 72 mil produtos químicos
são usados regularmente e cerca de 2.500 novos produtos
são introduzidos todos os anos. Deste total, entretanto,
apenas 15 têm seus efeitos parcialmente testados. Nenhuma
das substâncias químicas usadas hoje foram adequadamente
testadas quanto aos possíveis efeitos iniciados durante
a gestação e transmitidos de geração
em geração3.
Alguns destruidores endócrinos reproduzem a ação
do estrogênio no organismo. São substâncias
artificiais, como o DDT, que se comportam como o estrogênio
natural, e são chamados de estrogênios ambientais.
Provocam o aparecimento de características femininas
nos organismos afetados. A exemplo do DDT, são armazenados
na gordura dos organismos e são transferidos da presa
ao predador, provocando sua bio-acumulação através
das cadeias alimentares.
Cientistas noruegueses encontraram no verão de 1998,
diversos casos de ursos polares hermafroditas .
Problemas semelhantes foram encontrados nos peixes e jacarés
do lago Apopka, na Flórida, que sofreu alguns anos
atrás, uma grave poluição decorrente
do derramamento de Dicofol (agrotóxico da família
do DDT). Neste lago, observou-se a diminuição
do número de jacarés. Pesquisadores descobriram
que a diminuição era decorrente da reversão
de sexo de 25 a 30% dos jacarés machos encontrados.
Em sua maioria apresentavam anormalidades no pênis,
geralmente com tamanho reduzido de 2/3 à metade do
tamanho normal. O mesmo foi constatado com as tartarugas do
lago. Todos os machos observados eram intersexuais. Não
foi encontrado nenhum macho normal.
Em 1993, um grupo de toxicologistas identificou 45 pesticidas
e produtos químicos industriais como destruidores endócrinos
ou como suspeitos de serem destruidores endócrinos5.
Em 1995, o Conselho de Administração do PNUMA
aprovou uma lista com 12 POPs e iniciou um processo para a
criação de uma Convenção Internacional
para a redução o eliminação da
produção, venda e uso destes poluentes orgânicos
persistentes.
Foi criado um Comitê Intergovernamental de Negociação
- INC, que já se reuniu em Montreal, em junho de 1998;
em Nairobi, em janeiro de 1999; e, em Genebra, de 06 a 11
de setembro passado, quando participaram 115 países,
17 Organizações Intergovernamentais (PNUMA,
OMS etc.) e 72 ONGs, num total de 420 participantes.
Os 12 POPs aprovados inicialmente são a) pesticidas:
DDT, Aldrin, Chlordano, Dieldrin, Endrin, Heptacloro, Mirex
e Toxapheno; b) produtos industriais: bifenilas policloradas
(PCBs) e hexaclorobenzeno (que também é pesticida);
c) subprodutos de processos industriais e queima incompleta
(produção não intencional): dioxinas
e furanos.
Os critérios recomendados para que se considerem novos
POPs a serem acrescentados à linha existente são:
persistência, bioacumulação, capacidade
de transporte a longas distâncias e toxicidez. A partir
da análise destes dados, será possível
decidir se um produto químico apresenta riscos suficientes
para exigir uma ação global. Ao final de 1998
outros produtos químicos, incluindo metais pesados,
como o chumbo, tinham sido incluídos na lista inicial,
aumentando o número de suspeitos para 606. Uma estimativa
recente elevou para 250 o número de possíveis
disruptores endócrinos7.
Ao final da reunião de Genebra, decidiu-se propor
a eliminação dos 10 POPs produzidos intencionalmente,
com uma exceção para o DDT, que ainda é
a melhor alternativa para o controle de vetores transmissores
de doenças como a malária. A produção
de DDT será proibida para todos os outros usos, e os
países, com o apoio da Organização Mundial
da Saúde - OMS e do PNUMA, deverão buscar outras
formas eficazes de controle dos vetores transmissores de doenças.
Três pesticidas: Aldrin, Eldrin, e Toxapheno serão
eliminados totalmente, e cinco: Chlordano, Dieldrin, Heptacloro,
Mirex e Hexaclorobenzeno serão eliminados, mas poderá
haver isenções para alguns países específicos.
Novos usos e a produção dos PCBs serão
proibidos, e discute-se ainda, o que fazer com os PCBs atualmente
em uso, principalmente em equipamentos elétricos, e
em países em desenvolvimento (custos de substituição).
O Diretor Executivo do PNUMA, Klaus Toepfer, declarou ao
final da 3a reunião do INC, que: "Os temores estão
aumentando no mundo. Basta ver que poucos meses atrás,
muitos alimentos foram contaminados por dioxinas e PCBs na
Europa (Bélgica, principalmente), levando as autoridades
a suspender as vendas e ordenar a destruição
dos produtos".
Estas propostas foram encaminhadas para consultas entre os
países participantes, e foram discutidas na quarta
reunião do INC, que se realizou entre 20 e 25 de março
deste ano em Bonn, Alemanha.
A reunião de Bonn contou com 501 participantes, sendo
317 delegados de 121 países e representantes de 11
órgãos das Nações Unidas, 7 organizações
intergovernamentais e 81 organizações não
governamentais.
Houve concordância que o objetivo da futura Convenção
sobre o POPs seria a eventual eliminação da
produção e do uso destes produtos, incluindo
exceções como o uso do DDT para o controle do
mosquito que transmite a malária e para os usos existentes
dos PCBs. Estas exceções estariam sujeitas a
revisões periódicas pela Convenção.
Foram discutidas questões relacionadas com a minimização
de produtos não intencionais (by-products) como dioxinas
e furanos, e mais hexaclorobenzeno e PCB, quando forem produzidos
de forma não intencional em processos industriais.
Também foram discutidos e acordados os critérios
científicos para a identificação de POPs
adicionais e sua inclusão na lista atual.
A quinta reunião do INC, que discutiu o texto final
da Convenção para a assinatura pelos países,
foi realizada entre 04 a 09 de dezembro de 2000, em Johanesburgo,
África do Sul. Esta reunião discutiu também
as formas de assistência técnica e financeira
aos países em desenvolvimento e economias em transição,
pois a reunião de Bonn tinha reconhecido que tecnologia
e recursos adequados são pontos críticos para
o sucesso da Convenção.
O Grupo G-77 (países em desenvolvimento) e a China
propõem que seja criado um mecanismo financeiro próprio
de ajuda, que inclua um fundo multilateral independente.
Segundo Marcelo Kós, da Associação Brasileira
da Indústria Química - ABIQUIM, a eliminação
dos 10 POPs não vai afetar a indústria química
brasileira (sétima do mundo, com faturamento de US$48
bilhões anuais). O Brasil não produz, nem vem
utilizando os POPs condenados, com exceção do
Heptacloro para combater fungos nas árvores. Desde
o ano passado, o DDT não é usado pela saúde
pública brasileira.
A preocupação da indústria química
mundial (os EUA faturam 372 bilhões por ano e o Japão
US$216 bilhões por ano) é com os critérios
para a identificação e introdução
de novos POPs na lista atual.
O PNUMA iniciou em setembro de 2000, com recursos do GEF
(Global Environment Fund) um projeto de dois anos para avaliar
melhor os riscos que os POPs apresentam para o meio ambiente
e para a saúde, e as medidas que serão necessárias
para resolver este problema. Oito ou mais países em
desenvolvimento ou com economias em transição
serão selecionados para estudos de caso em problemas
causados pelos POPs e suas possíveis soluções.
Em 22 de maio de 2001, em Estocolmo, foi adotada a Convenção
sobre Poluentes Orgânicos Persistentes, assinada, em
seguida, por 105 países e pela União Européia.
Ela entrará em vigor após a sua ratificação
pelos Congressos/Parlamentos de 50 países (o Canadá
e as Ilhas Fiji foram os dois primeiros a ratifica-la). O
Objetivo da Convenção é proteger a saúde
humana e o meio ambiente dos efeitos deste perigoso grupo
de produtos químicos. Ela proporciona os meios para
proibir sua produção e uso, e para reduzir e
- quando possível - eliminar sua liberação
para o ambiente. A Convenção cobre atualmente
os 12 produtos químicos mencionados anteriormente,
mas definiu um processo, que inclui critérios científicos,
para a definição de novos POPs. Foi aprovado
também um mecanismo financeiro para ajudar os países
em desenvolvimento a tomar as ações necessárias.
O comércio de POPs (produzidos intencionalmente) e
rejeitos de POPs será restringido, e os estoques existentes
devem ser guardados, manipulados e tratados de forma ambientalmente
correta.
Para atingirmos os objetivos da Convenção,
serão necessárias várias mudanças
nos produtos, práticas e processos que usamos hoje,
com amplos impactos em todos os países8. Por exemplo:
a) PCBs: têm sido usados desde 1930, num amplo campo
de aplicações, incluindo equipamentos elétricos
e sistemas de transmissão (como transformadores). Uma
grande quantidade deste produto continua sendo usada em vários
países. Os materiais e equipamentos que contem PCBs
ou que estão contaminados com seus resíduos
terão que ser inventariados, retirados de serviço
e guardados de forma apropriada até 2025. E até
2028 devem ser finalmente dispostos de forma ambientalmente
correta. Isto significa lidar com milhares de peças
de equipamentos e envolve o gerenciamento de grandes volumes
de resíduos perigosos. Novos equipamentos elétricos,
usando materiais alternativos serão necessários;
b) DDT: a Convenção restringiu sua produção
e uso a programas de controle de malária, nos 25 países
que ainda usam o DDT, incluindo alguns dos mais pobres do
mundo. O objetivo, entretanto, é encontrar uma alternativa
prática e economicamente viável que permita
acabar com o seu uso. Todos os países Partes da Convenção
estão comprometidos com o desenvolvimento de alternativas
ao uso do DDT. Esta situação será revista
um ano após a entrada em vigor da Convenção,
e, em seguida, a cada três anos, até a solução
final do problema.
Alguns cientistas atribuem aos POPs a redução
de 50% na contagem de esperma nos países industrializados
nos últimos 50 anos9. Nestes países, várias
outras anomalias na saúde reprodutiva masculina, como
câncer testicular, testículos retraídos
e abertura anormal da uretra já foram identificadas10.
Entretanto, pesquisas de contagem de esperma feitas em alguns
países em desenvolvimento (Brasil, Índia, Israel,
Kwait, Nigéria, Tailândia) não identificaram
tendências claras de redução, e mostraram
até aumento em algumas áreas11. Para complicar
ainda mais a questão, algumas pesquisas não
identificaram redução da contagem de esperma
em algumas áreas urbanas na Europa e nos Estados Unidos12.
A sexta reunião do INC está marcada para 17
a 21 de junho de 2002, em Genebra.
Documentos oficiais das negociações e outras
informações sobre os POPs estão disponíveis
no site do PNUMA: www.chem.unep.ch/pops
e http://irptc.unep.ch/pops/default.html
* Fontes:
1. Wania, F. e Mackay D., "Global Distillation",
Our Planet, Vol. 8 nº 6. UNEP, Nairobi, 1997.
2. Mc Cally, M., "POPs, Medical Waste and Endocrine Disruption".,
idem.
3. Colborn, T., "Restoring Children's Birthrights",
ibidem.
4. Informação da Rádio WWF, Genebra,
1999.
5. Colborn, T., vom Saal, F., and M. Soto, A., Developmental
Effects on Endocrine-Disrupting Chemicals in Wildlife and
Humans", Environmental Health Perspectives, October 1993.
6. vom Saal, F. and M. Sheehan, D., "Challenging Risk
Assessment", Forum for Applied Research and Public Policy,
1988.
7. ENDS Report, "Industry Glimpses New Challenges as
Endocrine Science Advances", March 1999.
8. Buccini, J., "Getting on top of the POPs", Our
Planet, Vol. 12 n0 4, UNEP, Nairobi, 2002.
9. Carlsen, E. et al., "Evidence for Decreasing Quality
of Semen During Past 50 Years", British Medical Journal,
12 September 1992.
10. Bergstrom, R. et al., "Increase in Testicular Cancer
Incidence in Six European Countries: A Birth Cohort Phenomenon",
Journal of the National Cancer Institute, June 1996; J. Paulozzi,
L., "International Trends in Rates of Hypospadias and
Cryptorchidism", Environmental health Perspectives, April
1999.
11. H. Swan, S., "Sperm Count Decline studies Inconclusive",
Health and Environment Digest, September 1998.
12. Paulsen, C.A. et al., "Data from Men in the Greater
Seattle Area Reveals No Downward Trend in Semen Quality: Further
Evidence that deterioration in Semen Quality Is Not Geographically
Uniform", Fertility and Sterility, May 1996; Fish, H.
et al., Semen Analyses in 1,283 Men from the United States
over a 25-Year Period: No Decline in Quality", Fertility
and Sterility, May 1966; Ginsburg, J. et al., "Residence
in the London Area and Sperm Density", Lancet, 22 January
1994.
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