O desafio do meio ambiente no desenvolvimento agrário

Raul Jungmann

O Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) está buscando modernizar sua estratégia de trabalho pela integração das questões ambientais a todas suas atividades. Tal estratégia tem como enfoque principal assegurar que o desenvolvimento rural seja alcançado de forma sustentável, em conformidade com os ditames da justiça social e a preservação da natureza para as presentes e futuras gerações.

Para o MDA, o desenvolvimento rural tem por finalidade promover a melhoria das condições de vida no campo, por meio da garantia do acesso à terra e do fortalecimento da produtividade agrícola e não-agrícola como resultado de uma ação integrada na área social. O desenvolvimento rural deve, ainda, conservar e realimentar sua fonte de recursos naturais, promovendo simultaneamente a justa repartição dos benefícios alcançados em conformidade ao ideal de sustentabilidade da Agenda 21.
Com sua nova estratégia de trabalho, o MDA pretende obter melhor integração das questões ambientais aos seus programas e projetos. A expressão do seu compromisso com o princípio do desenvolvimento sustentável é a Agenda Ambiental da Terra, que sintetiza o programa de gestão ambiental e melhoria da qualidade de vida no campo do MDA. Do ponto de vista operacional, a Agenda Ambiental da Terra representa o desdobramento da Agenda 21 Nacional especificamente para o meio rural no segmento da produção familiar, numa atitude pró-ativa do MDA, demonstrando o seu engajamento na busca pelo desenvolvimento sustentável.

Que importância representa as questões de agricultura familiar e de reforma agrária no processo de desenvolvimento sustentável do país? Nos últimos anos evoluiu bastante a percepção social sobre as vantagens que podem trazer as políticas públicas de expansão e fortalecimento da agricultura familiar. Os agricultores familiares começam a ser identificados como um grupo social distinto dos agentes coletivos do processo de desenvolvimento rural, sendo vistos como um segmento importante da estratégia de desenvolvimento que o país necessita, e portanto, como um dos protagonistas do meio rural da agenda nacional de desenvolvimento sustentável.
Por sua vez, o Programa Nacional de Reforma Agrária tem sido considerado um fator decisivo para a consolidação do processo de desenvolvimento no campo. Neste contexto, ela é importante não apenas do ponto de vista social, como instrumento de acesso à terra e melhoria das condições de vida dos agricultores e trabalhadores rurais pobres, contribuindo para a redução da pobreza e das desigualdades sociais, mas tendo um papel fundamental na Agenda 21 Nacional, em geral e particularmente, para o fortalecimento da base produtiva sustentável no campo. Do ponto de vista econômico, melhora a distribuição da terra, diminui os latifúndios improdutivos e gera um mercado interno e fortes ligações entre o rural e o urbano. Quando vista em sua totalidade, afeta o conjunto de políticas sociais, econômicas e ambientais.

O Ministério do Desenvolvimento Agrário e o Incra, já adiantando significativamente as ações da Agenda Ambiental da Terra, vêm buscando, na totalidade de terras arrecadadas e naquelas retomadas das mãos de grileiros, áreas que sejam inadequadas para a reforma agrária e procurando dar uma destinação social para tais terras, disponibilizando-as para a criação de unidades de conservação. As terras a serem transferidas provenientes do cancelamento de títulos ilegais dos grileiros, significam, além do valor ambiental, um importante resultado da ação do MDA e do Incra no combate à grilagem, recuperando para o patrimônio ambiental brasileiro a posse daquelas terras. O compromisso deste ministro é o de repassar ainda este ano 20 milhões de hectares.

As áreas para a proposição de novas unidades de conservação estão sendo identificadas a partir da disponibilidades de terras do Incra e em função dos estudos desenvolvidos que visam a priorizar áreas de interesse ambiental para propostas de criação. Dentre esses trabalhos, pode-se citar: projeto ARPA (áreas prioritárias de preservação ambiental na Amazônia Legal ), que envolve o MMA, o Ibama, a WWF e o Bird e prevê atingir o montante de unidades de conservação correspondentes a 10% da área total da Amazônia Legal. Nos primeiros quatro anos do projeto, o compromisso de criação traduz-se num esforço de 10 milhões de hectares, sendo que 9 milhões em unidades de proteção integral e 1 milhão em áreas intangíveis de unidades de uso sustentável. Com a promessa do MDA - 20 milhões de hectares ainda este ano -, a meta prevista para o ano de 2004 poderá ser atingida já em 2001; o Programa Nacional de Florestas - PNF, de responsabilidade do MMA, em conjunto com o Ibama, prevê ampliar a rede de florestas nacionais na Amazônia em até 10 milhões de hectares de novas áreas até o ano 2003. A previsão de repasse de 20 milhões de hectares irá possibilitar também ao PNF alcançar sua meta num prazo bem menor, ou seja, em 2001.
O repasse de 20 milhões de hectares pelo Incra ao Ibama equivale à soma das áreas dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo ou à área do Estado de Santa Catarina ou à área correspondente à soma do Distrito Federal, Rio e Alagoas. Em termos de países, poderia ser comparado à área de duas Suíças ou à soma de uma Dinamarca mais uma Bélgica ou uma Coréia inteira.

Até o momento, foram disponibilizados ao Ibama aproximadamente 9 milhões de hectares. Desses, 1,7 milhão de hectares já foram convertidos em sete unidades de conservação por decreto presidencial. Outros 7,8 milhões de hectares foram identificados pelo Incra e encontram-se em estudos no Ibama para a definição da tipologia de unidade de conservação mais recomendada.
A Agenda 21 representa compromisso de governo, e o Ministério do Desenvolvimento Agrário está fazendo a sua parte no esforço nacional de alcance da sustentabilidade, contribuindo para a conservação da biodiversidade pela ampliação das áreas de unidades de conservação, no incentivo ao uso sustentável dos recursos naturais pelo aprimoramento do Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar - Pronaf no sentido de ampliar a oferta de créditos para atividades de caráter ambiental (silvicultura, manejo florestal, aquicultura, pesca artesanal, ecoturismo, agricultura orgânica, criação e manejo da fauna silvestre), e pela mudança no processo de criação e implantação de projetos de assentamentos de reforma agrária, que passam a considerar o componente ambiental. As responsabilidades institucionais do MDA representam um caminho na busca de um modelo de desenvolvimento que alie justiça social, acesso legal à terra, segurança, manutenção e valorização dos valores da populações rurais.

Raul Jungmann é ministro do Desenvolvimento Agrário

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